Dentro de mim existe um lugar onde vivo inteiramente só
e é lá que se renovam as nascentes que nunca secam.
P.Buch

29 de maio de 2011

Ser ou não Ser

Lembro-me de Cora Coralina quando vejo o que está acontecendo em Campinas em relação à Prefeitura. É que Cora Coralina dizia que a gente deve, quando sair de algum lugar, deixá-lo melhor de que quando entrou. Tão sábia, a linda Cora Carolina que aprendeu tudo fazendo as coisas do dia a dia e tirando daí as metáforas que encantaram sua vida.

No Yoga, que surgiu na Índia há milênios, aprendemos que existem algumas regras em textos sagrados que nos ensinam como devermos orientar as nossas relações com o mundo externo para vivermos um estado de consciência virtuoso. Algumas dessa regras são parecidas com os 10 mandamentos que aprendemos no cristianismo. Essas regras de conduta são verdadeiras em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo. Por exemplo: não roubar. Não roubar, é igual aqui no Brasil, no Japão ou na Finlândia; hoje, ontem ou na eternidade.

Ficamos indignados quando vemos a conduta das pessoas que estão no poder político e, sim, temos que nos indignar mesmo porque a sociedade não é suprida em suas necessidades básicas por conta desses desvios de caráter.

Mas acho que isso pode servir como uma inspiração para que nos observemos no dia a dia. Para saber quanto do “não roubar” eu ainda tenho de trabalhar dentro de mim. Por exemplo, quando escrevemos algo e não colocamos o autor daquela frase, ou daquele comentário deixando todos pensarem que é de nossa autoria. Isso é um roubo. Quando numa conversa não damos tempo do outro falar, estamos roubando o seu tempo. Quando nos apropriamos de ideias dos amigos de trabalho, quando fazemos ligações clandestinas (o chamado “gato”) de eletricidade ou de TV a cabo; quando eu furo a fila ou quando paro no lugar dos deficientes ou dos velhinhos. Roubamos também a paciência do outro. Não é o valor que se rouba, mas a atitude que fere nossa consciência. A lista é grande e o ideal é extirpar essas atitudes de dentro de nós.

O “roubar” está ligado ao fato de querermos ter algo que nos faz felizes, esquecendo que fazemos parte de um todo e que não somos separados de nada. Esquecemos que aquilo que faço é lançado no universo e, já que faço parte do universo, sou invadido por isso. Então a atitude de roubar faz com que eu esteja sempre sendo invadido pela falta.

“Não roubar” é não roubar nada, nem uma agulha sequer. Não é o caso de olhar só para o vizinho, nós temos que ser disciplinados quanto a isso. Temos que praticar ativamente, invertendo nossa tendência, removendo de dentro de nós essa conduta. Roubar um milhão de reais é a mesma coisa que roubar um real. A atitude é a mesma.

Se a gente vai se reestruturando quanto a isso, vamos permitindo uma transformação de nossos pensamentos, emoções. Não podemos permitir que nossa mente se disperse e esqueça o que estamos fazendo aqui.

"Para que uma árvore dê os seus frutos não basta plantar a semente, há que primeiro tratar do solo onde se vai semear." Swami Niranjanananda Saraswati

Não estamos aqui neste corpo físico só para TER coisas, estamos aqui para SER. Recebemos esse corpo físico, todo capacitado para pensar, sentir e fazer com a finalidade de podermos ter experiências nesse momento único da eternidade, para lembrarmos o que estamos fazendo aqui, para lembrarmos quem somos. Se eu não sei quem sou, se não sei o que estou fazendo aqui, então roubar significa muito pouco. Mas se sei quem sou e se sei que faço parte do universo, eu não preciso roubar nada, porque tudo que preciso está aqui, no universo, no meu ser.

Comecei esse post querendo falar de Cora Coralina que me inspira tanto e de repente as palavras foram para outro caminho. Agora, fico pensando em como amarrar a primeira frase com a última. Do meu quarto olho pela janela e vejo o céu avermelhado, lindo. Fico ali um pouco agradecendo essa imagem e penso em Cora Carolina e penso que também quero sair desse mundo e deixá-lo melhor do que quando eu cheguei.

"Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."  Cora Coralina

25 de maio de 2011

Por todas as nossas relações

Entrevista com Kaká Werá
"Quanto mais o indivíduo tem consciência de si, mais ele se percebe como um grupo."
"A consciência é ampliada quando conseguimos entrar no espaço vazio dentro de nós"

18 de maio de 2011

PROFESSOR HERMÓGENES


Namaste!
No último final de semana tive o prazer de conhecer de pertinho o Professor Hermógenes lá na casa Siloé, onde o Instituto de Yogaterapia fez um evento em sua homenagem. Com 90 anos, o Professor conserva uma alegria genuína que contagia a todos. Através de sua coerência e sabedoria diante das questões da vida, que muito me emocionaram, ele transmite a paz de viver uma vida simples, com profundidade, amor e leveza.
E diz: “Não deixe sua felicidade depender daquilo que não depende de você.Veja o Bem, ouça o Bem, fale o Bem e faça o Bem. E destacou que a sociedade ideal, onde seríamos felizes, é aquela onde cultivássemos a verdade, a justiça, a paz, a não violência e o amor.

Com bom humor ensinou: “Quando for dizer: eu sou (alguma coisa) capriche bem no final dessa frase. Não permita que pensamentos negativos invadam sua mente, tirando sua paz interna.

O Professor Hermógenes fala sempre que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal, de fazer parte da norma. As pessoas querem se encaixar num padrão. Ter o mesmo carro, o mesmo perfume, o mesmo tipo de casa de lazer. A normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.

Repetiu várias vezes que para nossas preocupações sem soluções devemos ter em mente o seguinte mantra e vivenciá-lo:

Eu entrego
Eu confio
Eu aceito
Eu agradeço

O Professor é uma inspiração no tocante à retidão, à ética, à amorosidade, à disciplina e à coerência.

Foi um momento muito especial para mim e agradeço ao Márcio e à Rosângela que organizaram todo o evento com muito carinho para que nós ficássemos aconchegados e usufruíssemos de tanta beleza, delicadeza e quietude





 "Se te contentas com os frutos ainda verdes,
toma-os, leva-os, quantos quiseres.
Se o que desejas, no entanto, são os mais saborosos,
maduros, bonitos e suculentos,
deverás ter paciência.

Senta-te sem ansiedades.
Acalma-te, ama, perdoa, renuncia,
medita e guarda silêncio.
Aguarda.
Os frutos vão amadurecer."

Professor Hermógenes

10 de maio de 2011

Dona Irene


Irene fazendo broa
Dona Irene, 89 anos no dia 12 de maio, quinta-feira. Seu forte é a broa que ela faz para esperar os filhos, netos e bisnetos que vão tomar café da tarde com ela num sábado ou domingo. Ah, mas ela não faz só a broa não. Lava roupa, cozinha, vai ao supermercado andando devagarinho pelo bairro, encontra conhecidos e trocam meia dúzia de palavras, limpa toda casa e cuida de meu pai. Às vezes me pergunto como que ela ainda aguenta fazer tudo isso e ela me responde com simplicidade que pega a vassoura e ora: “Deus dai-me força para deixar essa casa limpa pro Senhor me visitar. É daí que tiro forças para fazer tudo o que faço”. Bom, nem preciso dizer que quando me bate uma pequena preguiça, lembro de minha mãe e a preguiça vai embora rapidinho.

Meu pai, admirado, me conta que ela faz ginástica na igreja do Parque Industrial duas vezes por semana, lugar onde umas 200 pessoas se encontram com o propósito de se movimentar. Quando o professor não vai ou está de férias ela faz os exercícios ali mesmo na sala da casa, num colchonete que ela mesma fez. Minha mãe é uma das mais velhas do grupo e se orgulha de dizer que consegue fazer quase todos os exercícios, inclusive alguns que suas colegas mais novas não conseguem. Ela não usa óculos, não precisa de um. Não toma remédio, tem suas próprias ervas que planta no fundo do quintal. Não consigo contar quantas pessoas ela, junto com meu pai, já ajudaram e, por isso, a casa deles sempre tem uma visita ou outra que nunca deixam de dar uma passadinha por lá para saber como estão dona Irene e seu João.

Dia 12 de maio ela faz 89 anos e o que ela mais quer é ver toda família lá, paparicando. E eu quero chegar nessa idade com a mesma vontade que ela tem de ajeitar o mundo para as pessoas, de ter essa fé que a mantém em pé e fazer o que tem que ser feito, de amar incondicionalmente a todos.
Parabéns dona Irene! Muitos anos de vida bem vivida.

Abaixo um poema do CD de Márcio Assunção "Mantras do Coração" inspirado numa oração da Atroposofia que me lembra minha mãe:

                Mãos
Mãos que abençoam e fazem o Bem
Mãos que trabalham e não se detem
Mãos que amorosa e a todos amparam
Mãos que rezam e sempre rezaram
Mãos que se elevam num gesto profundo
São dessas mãos que precisa o mundo
Mundo que faz a cura estar
nas mãos de quem sabe doar Amor
Amor.... Amor... Amor...

9 de maio de 2011

Habilidades

Descobrir nossas habilidades e colocá-las em práticas é um grande feito.
E realizar isso com otimismo e alegria faz com que novas oportunidades apareçam.
Não é o que você faz, mas como você faz é que te tira da "normose".

O video abaixo me inspira a ir um pouco mais além daquilo que já faço.

ou

6 de maio de 2011

Dia das Mães

Coincidências à parte, perto do dia das mães, e eu acabo de ler essa citação de um livro que estou estudando para fazer uma resenha para o meu curso. O autor conta uma experiência de relaxamento e diz:

“...Essas preliminares têm como objetivo acalmar a mente, e logo meus pensamentos turbilhonam menos. Sempre consciente da respiração que vai e que vem, eu me maravilho por estar vivo, aqui e agora, num corpo humano, corpo que é formidável simplesmente por estar vivo. Depois tomo consciência de que essa vida veio até mim através de minha mãe, que a recebeu da sua, depois de sua avó, e assim por diante. Tento achar a mais remota e feliz lembrança de minha mãe, e se há conflito – é mais freqüente do que se crê – passo a geração precedente. Tento também rever minha avó, se a conheci, para que tudo seja bem concreto. Depois, me conscientizo da linhagem ininterrupta e anônima das mães e, com amor, agradeço-lhes por terem assim transmitido a tocha da vida até mim. Não um agradecimento superficial, mas uma onda de amor. Inserido nesse passado sinto-me ligado a todo o passado da vida. Todas as experiências da vida estão contidas em meus genes, em minha vida. E que incrível soma de acasos foi necessária para que eu esteja aqui e agora.”

No Yoga há vários ásanas (posturas) onde abaixamos a cabeça simbolizando que eu reconheço a minha existência e a importância fundamental que minha mãe e meu pai têm nessa minha existência. Isso, temos que honrar! Honrar o que ficou atrás para eu poder seguir com a cabeça erguida e com humildade. Eu plantei o meu corpo. Meu corpo é perfeito e se torna mais perfeito ainda se eu honro o que fui. Só vou para frente quando honro o que vem antes de mim.

Assim, tocada com o que acabo de ler, deixo aqui minha profunda gratidão e reconhecimento a todas as mulheres (Irene, Silvana, Francisca, Roza...), mães de mães que me possibilitaram estar nessa experiência aqui e agora com toda a vida e experiências vividas por todas elas presentes em mim. Portanto somos todas ligadas como somos ligadas ao planeta, ao universo, ao mar, à floresta, à terra, ao fogo e ao ar. Tudo isso vive dentro de mim.

1 de maio de 2011

Yoga e Pão

Minha amiga Lilly em perfeita postura
Bom, eu não sou grande cozinheira, mas adoro cozinhar e curtir todo o ciclo do alimento. A terra acolhe a semente e dá os nutrientes, a chuva supre de água, o sol dá o calor necessário e tudo relaxa e descansa enquanto a semente desabrocha, cresce e se torna o que ela é em essência. O homem cuida da terra e, através do conhecimento milenar, sabe exatamente que deve colher no momento em que a vida está no ápice. Depois, há os caminhos percorridos até chegar na minha cozinha, onde escolho - e me encanto com - os formatos, as cores, as texturas e o cheiro. Aí misturo todos eles me lembrando das bruxas de tempos imemoriais, aquelas que eram sacerdotisas, curandeiras, professoras, poetizas e parteiras e que foram queimadas na Idade Média porque sua “ciência” fazia concorrência com a religião dominante. Na verdade, ser bruxa era reivindicar para a mulher o direito de ter poder e, para o homem, o de reconhecer a presença da divindade na feminilidade. Bom, voltando à cozinha, ao misturar os ingredientes, adoro ver a alquimia acontecendo, as cores se misturando, os sabores se complementando.

Esse sábado fui fazer o pão de aveia que aprendi com a Nani, uma cozinheira de mão-cheia que mora nas montanhas. Eu já tinha feito uma vez e ficou lindo.Desta vez, apesar de todo meu amor, de todo carinho... não deu certo. Como? Eu fiz tudo certinho. Não deu certo. Não cresceu. Não cozinhou por dentro...

Senti a maior frustração.Fiquei observando essa frustração e me lembrei que também tenho esse sentimento quando não consigo fazer perfeitamente algumas posições do Yoga. Por que não sai perfeito se me esforço, se pratico todos os dias e se faço com tanto amor? Então o sentimento é o mesmo.O Yoga diz que devemos observar nosso corpo e respeitá-lo. Não faremos nada que possa machucá-lo ou passar do seu limite hoje, e é através dele em harmonia com a mente que nos ligamos a estados expansivos de consciência. As posturas finais não devem ser o objetivo do praticante, mas sim a atenção no movimento, estar presente observando-se sem julgamento, para descobrir a inteligência, a consciência que está escondida no corpo. Mas meu ego ainda fica me dizendo para fazer as posturas iguais às do meu colega ao lado ou ainda iguais às da minha amiga e professora de Yoga, Lilly. Daí a frustração.

Por que juntei meu pão de aveia com a minha prática de Yoga? Bom, é que nos dois casos o sentimento de frustração apareceu. Nas práticas, cada dia acordo dizendo hoje é um novo dia e vou fazer cada movimento com toda a minha atenção como seu fosse o primeiro dia. Permito-me esse recomeçar e respeito todos os outros dias e as outras tentativas como fazendo parte de minha história corporal. Alguns dias consigo um pouco mais, outros um pouco menos, mas o estar presente, estar aberta para uma expansão é o que verdadeiramente me faz sentir com alegria que estou no caminho certo. Assim a frustração enfraquece e me sinto em harmonia, em paz.

Ah, sim, e o pão de aveia? Enfraqueci a frustração e, neste domingo de manhã, depois de minha prática e de dar duas voltas na Lagoa do Taquaral com o Ed, fui fazer um novo pão, com um novo sentimento, com concentração e presente no que estava fazendo. E esse deu certo.
Pão de Aveia
O pão se faz por sua bondade, com sua ajuda, com sua imaginação que flui através de você. Com a massa sob suas mãos, você a transforma em pão. Este é o motivo pelo qual, fazer pão é tão gratificante.

Tudo está conduzindo você, empurrando-o, instruindo-o, levando-o para o conhecimento supremo e perfeito. Isto quer dizer que não há enganos. Você pode fazê-lo de maneira diferente da próxima vez, mas isto é porque o faz assim desta vez. Perfeito, mesmo que diga: pus mais disto, pouco daquilo. É você, e, por favor, seja você mesmo. Ofereça-se. Cozinhar não está simplesmente na língua, no palato. Está no corpo inteiro, fluindo da virilha e do peito, pelos braços e pelas mãos.

Uma receita não pertence a ninguém. Dada a mim, eu a dou a você. Somente um guia, somente um esqueleto. Você deve cobri-lo de acordo com sua natureza e desejo. Sua vida, seu amor trarão estas palavras à plena criação. Isto não pode ser ensinado. Você já sabe. Por isso, cozinhe, ame, sinta, crie.

(The Tassajara Bread Book – Edward Espe Brawn)

20 de abril de 2011

Fé

Gostei desse video que fala das qualidades que já temos em nós e que precisamos tomar consciência disso. Está em inglês com a legenda também em inglês com duração de 5:11.

13 de abril de 2011

A Vida

Meu notebook quebrou novamente e foi para o conserto: uma semana sem ele, sem acesso e tentando reformular minha rotina. Confesso que sobrou tempo para fazer coisas diferentes, mas as outras ficaram atrasadas, como responder e-mails por exemplo. Assim pude me deliciar nos meus livros que estão empilhados porque vou comprando e esperando um tempo para poder lê-los.

Estou então lendo um deles e vou colocar aqui alguns trechos de um capítulo que gostei muito, cujo título é: “Tudo o que está aqui está lá, o que não está aqui não está em lugar nenhum”

... O universo vive, cada estrela está viva no pleno sentido da palavra. Como parte do Todo, eu participo do Todo. Não somos separados do resto dos seres vivos, perdidos num minúsculo planeta, ínfima poeira cósmica impulsionada no ínfimo interestelar gelado. Somos partes integrantes da vida desde sua origem, sob todas as suas formas.

Causar dano a qualquer forma de vida é causar dano à sua própria: a ecologia se torna cósmica. A árvore, por exemplo, é bem mais do que produtora de madeira e pranchas, ela é um ser vivo. Não somos separados da árvore e nem da floresta. Uma forma de consciência vive nela, mesmo que não seja concebível pelo nosso intelecto. A água que compreende todos os líquidos, também capta todos os ritmos cósmicos. Assim há bilhões de anos a Lua comanda e ritma o fluxo e refluxo das enormes massas oceânicas, esculpindo pouco a pouco as orlas marítimas, mas principalmente, acalentando a vida, influenciando todos os nossos ritmos vitais. A matéria viva impregnada na água é muito sensível aos ritmos cósmicos: em meu sangue e até em minhas células, há minimarés. A Vida se manifestou graças ao Sol: é de sua luz e sua energia que ela extrai sua força.

Eu me maravilho por estar vivo, aqui e agora, num corpo humano: corpo que é formidável por estar simplesmente vivo. Se no cérebro estou otimista, relaxado e sereno, esse clima impregnará todo o meu corpo, até a última célula do dedinho do pé! E vice e versa. Assegurar corretas condições de vida para as células as faz felizes, otimistas e serenas. Se ao contrário, o acúmulos de erro de minha vida me fez doente, ser-me-á preciso curar cada célula antes de estar verdadeiramente curada.

A vida que palpita em mim é tão antiga e tão nova quanto no primeiro dia da criação. Eu sou essa vida que atravessou bilhões de anos. Todo poder e toda a inteligência da vida estão presentes em mim, aqui e agora. Todas as experiências da vida estão contida em meus genes, em minha vida. Minha vida individual torna-se extraordinária.

Tudo se trata de tomarmos consciência dessa coisa maravilhosa que é a Vida e sentir-se levado por ela, sentir-se parte indissociável de toda a vida do planeta. Vinculado a essa força invencível, nada mais pode me acontecer e tanto o dinamismo quanto a incrível inteligência da vida estão aqui, presentes em mim.”

Bom, nem foi tão ruim assim ficar sem meu notebook. Em meio a tantas notícias trágicas de televisão, também desfrutei dessas deliciosas idéias do livro das quais me identifico e que compreendo um pouquinho mais a cada dia de minha vida....

10 de abril de 2011

Monja Coen


Monja Coen
Quando li o que a Monja Coen falou sobre o Japão, fiquei imaginando quanto ainda temos que aprender com relação a nós mesmos. Que não somos separados de nada. Que tudo que fazemos nos afeta de alguma maneira. Coloco na íntegra a entrevista da monja:


Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: Kokoro ou Shin que significa coração-mente-essência.

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras. A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima. A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos- mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem.

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia? me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

8 de abril de 2011

RESPIRAR EM MARESIAS

Estive num lugar lindo em Maresias, por nove dias, entrando em contato com minha respiração.

Renascimento é uma técnica simples de respiração que nos dá um grande bem estar, desfazendo os nós energéticos, soltando as tensões que acumulamos durante nossa vida e, portanto, nos fazendo experimentar uma conexão interna com nós mesmos.

Desse modo, começamos a viver mais conscientes com tudo que acontece em nossa vida e de como escolhemos coisas que são ditadas pelas nossas crenças.

O que pensamos até agora cria as experiências que temos nesse momento. Então, se escolhermos pensamentos mais expansivos podemos criar experiências de vida mais expansivas também, buscando aquilo que queremos.

Nesse lugar muito bonito fui me apropriando dia a dia dos meus processos internos e percebendo como funciono, tomando contato com velhos padrões de certo e errado e, à medida que respirava conscientemente, ficava mais livre para experimentar um estado de expansão muito agradável.
Respirar conscientemente faz com que entremos em contato com tudo que registramos em nosso corpo, emoção, sentimento, pensamento os quais suprimimos ou rejeitamos, nos levando a repetir as mesmas velhas experiências. Com a respiração solta, fluída e sem tensões tomamos contato com nosso estado natural.

Nesses nove dias compreendi que qualquer coisa que nos aconteça, qualquer assunto que comece a fazer parte de nossa vida, mesmo os que a gente considere mais doloridos, qualquer coisa, temos sempre um outro jeito mais expansivo de nos ver. Qualquer coisa que experimentamos na vida é sempre uma configuração da nossa própria vitalidade. Ao olhar dessa maneira percebemos o que realmente sentimos, ouvimos e vemos, e acolhemos qualquer que seja a experiência.

A respiração consciente tem a ver com a troca de energia com o universo.

17 de março de 2011

Renascimento, A Arte da Respiração

Estarei 9 dias fazendo o curso avançado de Renascimento, dessa vez não nas montanhas, mas em Maresias. Abaixo, deixo o mesmo vídeo que já deixei da outra vez, só para ilustrar o que é essa técnica maravilhosa chamada Renascimento.

Uma vez perguntaram ao Buda:
- Qual é a programação para hoje, mestre?
E ele respondeu:
- Respirar, respirar e respirar...


15 de março de 2011

Uma ecovila


Onde se realizam os cursos - visão privilegiada

Esse ano, minha professora de Yoga deixou de ser minha professora de Yoga. Ela foi ter uma outra experiência em uma ecovila.

Domingo resolvi então, junto com minha amiga Maria, visitar essa ecovila chamada “Parque Ecológico Visão Futuro” que tem como objetivo se tornar um modelo de desenvolvimento rural integrado e sustentável, construindo uma economia solidária e autossuficiente, provendo alimento, educação, saúde e habitação aos seus integrantes.

Eles têm diversos projetos interessantes com uma abordagem abrangente onde, como diz Susan Andrews,  “somos todos conectados não só na família da humanidade, mas na família de toda criação”.

Pausa para um suco e bolo de banana


Foi muito bom andar naquele verde reluzente. Enquanto caminhávamos, pudemos ver as instalações ecológicas – cata-ventos, aquecimento solar, tratamento biológico da água de esgoto, reciclagem de água, agricultura orgânica e compostagem, a horta de plantas medicinais, cujo laboratório fitoterápico produz medicamentos ayrvédicos, tudo compartilhado com o público em geral em programas abertos.

Jardim de ervas medicinais
 Também existe a creche CreSer onde as crianças da região aprendem a ler e a escrever e também desenvolvem automotivação, dignidade, valores éticos e amor para com todos os seres, incluindo o que se chama de “Alfabetização Emocional", cuja essência é despertar nas crianças a empatia pela vida como um todo.

Uma visão privilegiada

Sala de meditação
Durante o tour, um guia nos mostra os lugares e explica tudo. “Uma micro-destilaria de álcool faz parte da nossa meta de 'Soberania Alimentar e Energética'. A cana de açúcar não é cultivada de forma intensiva e extensiva, mas sim consorciada com feijão, girassol e mandioca. Com isso, além de produzirmos a energia renovável que abastece os nossos veículos, produzimos alimentos para os moradores e para o bairro no nosso entorno.”

Existe também o “Programa Transforma” que é um conjunto de estratégias para introduzir mudanças mais eficientes e conscientes nas empresas para gerar uma nova cultura de sinergia entre o indivíduo, a equipe, a instituição e a comunidade - mudanças profundas baseadas em valores éticos, transformando os participantes por meio do crescimento interior.

Eles também trabalham com a proposta da Felicidade Interna Bruta (FIB) que é um indicador criado no Butão como um novo paradigma de indicador de progresso, e que mede a verdadeira riqueza de uma comunidade (bom padrão de vida econômica, boa governança, educação de qualidade, boa saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, gestão equilibrada do tempo e bem estar psicológico). Esses indicadores foram desenvolvidos por pesquisadores internacionais, com o apoio das Nações Unidas para o Desenvolvimento, com o objetivo de mobilizar a cidadania (adultos, jovens e crianças) em prol do bem-estar coletivo nas nove dimensões do Indicador FIB.

Isso é feito através da coleta de dados a partir do questionário FIB, ministrado pelos jovens do bairro, seguido de uma série de reuniões na comunidade para incentivar o protagonismo da população na busca contínua da felicidade individual e comunitária.

Depois disso, uma nova abordagem de “Educação para Felicidade” é introduzida nas instituições de ensino locais, com a finalidade de promover valores positivos nas crianças e nos jovens, de uma forma lúdica e duradoura, e também para proporcionar seu desenvolvimento integral através de técnicas de harmonização corpo-mente. A plena expressão do potencial de liderança é estimulada nas crianças - tornando-as “Agentes de Alegria” que inspiram e motivam os adultos - e nos jovens que atuam como dinâmicos parceiros dos adultos no movimento a favor do bem-estar coletivo e do desenvolvimento sustentável local.

Atualmente, esses indicadores estão sendo implementados não somente no Butão, mas também em outros países do mundo, tais como Inglaterra, EUA, Tailândia e Canadá, bem como em cidades no Brasil.

Conhecer a Susan Andrews também foi muito bom. Terminei o domingo com um ótimo sentimento de agradecimento por saber que existem tantas pessoas incansáveis construindo, aos pouquinhos, relações mais eficientes que nos apóiam em nossa expansão de consciência.
Um dos cantinhos do Parque

9 de março de 2011

Relacionar

O livro de Elizabeth Gilbert, “A Comprometida”, fala sobre a instituição casamento, e basicamente sobre relacionamentos. E diz que, depois de um tempo em que homens e mulheres vivem juntos, começam a conhecer não só as falhas um do outro, mas também o que é digno de respeito e admiração do outro. Com muita lucidez sugere que “talvez criar um espaço dentro da consciência grande o bastante para guardar e aceitar as contradições de alguém, seja um ato divino. Talvez a transcendência não se encontre só nos picos solitários das montanhas ou nos ambientes monásticos, mas também na mesa da cozinha, na aceitação cotidiana do parceiro. Não falo em aprender a aguentar o que não presta, falo em aprender a adaptar a vida da maneira mais generosa possível em torno de um ser humano basicamente decente que às vezes podem ser insuportável. Quanto a isso, a cozinha pode ser um templinho azulejado aonde vamos praticando diariamente o perdão como nós mesmos gostaríamos de ser perdoados.”

É verdade que relacionar-se com o outro é um processo de aprendizagem constante e também uma forma de se desenvolver e se autoconhecer, desde que sejamos honestos com nós mesmos, não achando que relacionamentos são aqueles vistos nas novelas de TV. Saber que o outro é um ser humano diferente de mim e aceitar isso já faz grande diferença em como vou me relacionar.

Ainda nesse livro, ela descreve lindamente sua aceitação com o diferente. Diz ela: “... há diferenças simples entre mim e Felipe que ambos temos que aceitar. Posso garantir que ele jamais fará uma aula de ioga comigo, por mais que eu tente convencê-lo de que ele adoraria. (Ele não adoraria mesmo). Nunca meditaremos juntos num retiro espiritual de fim de semana. Nunca conseguirei que ele coma menos carne vermelha. Jamais farei com que controle seu mau humor. Não vamos passear de mãos dadas pela feira... de modo que esse imenso prazer meu continuará a ser um prazer particular. Do mesmo modo, há prazeres na vida dele que jamais serão meus. Nunca tivemos filhos, por isso Felipe não pode ficar horas a fio conversando com a parceira sobre seus filhos Zo e Erica quando eram pequenos, como talvez fizesse se o casamento com a mãe deles tivesse durado 30 anos. Ele adora bons vinhos, mas me servir vinho bom seria um desperdício. Algumas dessas diferenças são importantes outras nem tantos, mas todas inalteráveis. No final das contas parece que o perdão talvez seja o único antídoto realista que o amor nos oferece para combater as decepções inevitáveis da intimidade.
Há momentos em que quase consigo ver o espaço que me separa de Felipe, e que sempre nos separará, apesar do meu anseio vitalício de me complementar pelo amor de alguém, apesar do meu esforço, no decorrer dos anos, para encontrar alguém que seja perfeito para mim e que, por sua vez, faça com que eu torne um tipo aperfeiçoado. Em vez disso, as nossas dessemelhanças e defeitos estarão sempre entre nós.
É difícil que haja um presente mais generoso que se possa dar a alguém do que aceitar a pessoa por inteiro, amá-la quase apesar dela.

O relacionamento é uma eterna possibilidade de ver espelhado no outro aquilo que gosto e o que não gosto em mim mesma e, com coragem, contestar nossas crenças e paradigmas arraigados e que estão lá confortavelmente estabelecidos. Não se trata de negá-los ou evitá-los, mas trata-se de investir em relacionamentos de qualidade capazes de enfrentar a verdade sobre nós mesmos. Ao relacionarmos, entramos em contato com sentimentos novos que são só nossos e temos que aprender a lidar com eles. Às vezes caímos na armadilha de achar que o outro é responsável pela nossa paz interna, nossa felicidade e nossa alegria. Não é. O outro tem seu próprio processo, seu próprio ritmo de processar o sentimento e suas crenças limitantes. Esperar que o outro aja, sinta e pense exatamente como nós é querer algo que foge do natural.

Jung diz que todo relacionamento é 50% de responsabilidade para cada uma das partes. Um relacionamento, na verdade, é resultado do que as partes colocam nele.

Então, me parece que aceitar (e claro não falo aqui de aceitar agressão, violência, etc.) o outro como um ser integral e único é o caminho para assumir minha parte de responsabilidade na relação gerando um crescimento individual para as pessoas envolvidas.


Änïmä
Milton Nascimento

Lapidar
Minha procura toda
trama lapidar
o que o coração
com toda inspiração
achou de nomear
gritando: alma
Recriar
cada momento belo já vivido
e ir mais
atravessar fronteiras do amanhecer
e ao entardecer
olhar com calma
então

Alma, vai além de tudo
o que o nosso mundo ousa perceber
casa cheia de coragem, vida
tira a mancha que há no meu ser
te quero ver
te quero ser
alma

Viajar nessa procura toda
de me lapidar
neste momento agora de me recriar
de me gratificar
de busto, alma, eu sei
casa aberta
onde mora o mestre, o mago da luz
onde se encontra o templo que inventa a cor
Animará o amor
Onde se esquece a paz

Alma, vai além de tudo
o que o nosso mundo ousa perceber
casa cheia de coragem, vida
todo o afeto que há no meu ser
te quero ver, te quero ser
alma

5 de março de 2011

90 ANOS


Meu pai, cheio de bom humor
Hoje meu pai fez 90 anos.
Nós (filhos, netos, bisnetos e agregados) celebramos esse dia, afinal não é sempre que temos alguém fazendo 90 anos, com um um filme contanto sua vida desde quando nasceu. Muita emoção para ele e para todos os familiares.

Meu pai chegou aos 90 com dignidade, com bom humor e com uma sabedoria que foi adquirindo durante esses anos, enfrentando cada evento do dia-a-dia sem fraquejar. Por não reclamar de nada, apesar de suas dificuldades de ouvir e andar, tem uma energia boa e todas as pessoas gostam de estar a seu lado. Conta suas histórias, às vezes repetidas, com tanta graça e humor que rimos delas novamente.

O humor e o não reclamar fazem parte de nossa cura interna. Ao reclamar, esvaziamos nossa energia e abrimos espaço para que a negatividade se instale. Às vezes temos o vício de reclamar e não conseguimos abrir espaços para que a alegria apareça. Ficamos presos ao passado, a algum sentimento que não precisamos mais. E meu pai, com seu exemplo de vida, me inspira a agradecer, ao invés de reclamar.

Agradecer meu corpo, esse instrumento perfeito que tem uma inteligência curadora, regulando todo esse sistema.
Agradecer o ar que ao entrar e sair me proporciona tranqüilidade, relaxamento.
Agradecer a vida que pulsa em mim, em todas as pessoas e em todo o Universo.
Agradecer por poder celebrar os 90 anos de vida de meu pai.

Meu pai e minha mãe assistindo o filme de suas vidas



20 de fevereiro de 2011

Se

Prof. Hermógenes
O Dr. Hermógenes (90 anos) é um dos maiores mestres do Yoga no Brasil há 50 anos. Sempre que alguém fala em envelhecer me lembro dele, mais do que isso, bebo de suas palavras tão sábias, tão profundas, como se fosse um farol a nos indicar um outro modo de ver a vida.

Diz ele numa entrevista para o "Planeta Sustentável", “...que a felicidade tem a ver com a aceitação do fluxo natural da vida e a maneira como encaramos os acontecimentos é o que faz a diferença."

"Eu respeito o tempo. O que o tempo me traz eu enfrento, e não me iludo com isso. Tenho saúde, felicidade e paz e aceito que o tempo passe. Todas as pessoas são formadas pelo corpo, mas também pelas energias, pelas emoções e pelos pensamentos. Precisamos nos reeducar para dar atenção a todos esses componentes. A cura do corpo é muito importante, mas não é o essencial. Infelizmente, até agora, a ciência ocidental insiste em tratar o iceberg como se fosse somente a parte de cima e nega a existência de toda a parte escondida. Se tratamos só do corpo físico, não alcançamos a saúde integral, completa. A Hatha Ioga tem promovido saúde para um número imenso de pessoas, que se curam de doenças físicas, melhoram psicologicamente e evoluem espiritualmente.

Tenho observado que, à medida que envelhecem, as pessoas se tornam mais próximas de seu lado espiritual. Elas se aproximam mais da essência. A gente vai se afastando na estrada por onde anda, olha para os obstáculos todos e tem outra visão do mundo. Aprende a amar, perdoar, ajudar e ser feliz.

Quando olho para a minha estrada, isso me deixa muito feliz e recompensado. Foi tão bom! Sair da “normose”, superar a tuberculose e viver uma vida mais risonha, suave, mais luminosa...

Estou em uma idade e com condições físicas em que posso sumir daqui a pouco, graças a Deus. A morte é um tempo de folga, de férias. Consiste em perder essa carne, esse corpo, mas, como não sou um corpo, a morte não me alcança, estou certo disso. Morte me lembra as palavras: “entregue, confie, aceite e agradeça”.

E aqui coloco uma poesia dele que gosto muito:

                  Se
Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...
Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,
Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.
(Professor Hermógenes)

13 de fevereiro de 2011

Mudança

Coloco aqui um trechinho do post “Módulo”, do blog da Mirella “Nós pela Terra”. Ela está estudando Ciências Holísticas em Londres, no Schumacher College, (o endereço do blog está na lista de blogs lado direito).

(...) O módulo do curso que estou fazendo agora se chama Desenvolvimento Transformativo. No começo da semana tivemos aula com Ian Christie, que introduziu o assunto ressaltando o quanto os erros são importantes para o desenvolvimento, além de dizer que estamos numa época tão crítica que também representa a melhor oportunidade para a mudança ocorrer. Interessante também o relato de um estudo sobre o quanto casais que estão esperando o primeiro filho e pessoas recém-aposentadas vêem o mundo e têm expectativas diferentes da maioria, já que se encontram numa posição de esperança e de receptividade total à mudança...

Achei muito interessante e partilho dessa ideia de que os erros têm importante papel no nosso desenvolvimento, nos tornando mais cuidadosos, menos arrogantes, ampliando a nossa visão estreita e nos tornando mais resilientes. Se encararmos as mudanças de forma positiva, e se entendermos como os nossos sentimentos impactam essas situações, poderemos então tirar grande aprendizado dessas experiências que temos e que nos parecem tão dolorosas. Um componente importante aqui é o perdão, o perdão a si mesmo. Costumamos achar que errar significa fracasso, mas, como professora, vejo isso mais claramente. Errar é aprender, é a oportunidade de apagar e refazer, é se conscientizar de onde temos que colocar mais esforço, é integrar os bloqueios inconscientes e se sentir livres do que impede de seguir adiante.
Gosto muito da metáfora que existe no Jogo da Transformação (jogo desenvolvido na comunidade de Findhorn, na Escócia) que quando você tem dores pelo caminho da vida, você caminha mais devagar e só quando você integra essas dores e se conscientiza de suas virtudes é que tais dores são removidas. É a consciência de suas virtudes e dores que te movem para outro nível de consciência.

Uma vez sabendo quais são os nossos verdadeiros sentimentos em relação a uma situação, segundo Deepak Chopra, "temos uma escolha, ou várias escolhas. Podemos empurrar o sentimento de volta para dentro, podemos nos culpar por não sermos uma boa pessoa, lamentar ou se desculpar. Nenhuma dessas alternativas é produtiva, pois nos conduzem à nossa sombra, reforçando o sentimento indesejável. Até que você faça as pazes com seus sentimentos negativos, eles persistirão. Para isso você tem de sentí-los, escutar a história que eles contam, por exemplo: Não sou bom o suficiente, eles não gostam de mim; nunca consegui desenhar; não cuidei bem de minha irmãzinha...”

Depois de ouvir a história, Deepak sugere que "a gente seja receptivo a esta história e que isso foi criado no passado e que, naquele momento, você era criança e não tinha escolha porque o sentimento foi secretamente guardado e permaneceu ali escondido. Os sentimentos antigos ficaram por perto para protegê-lo de feri-lo. Agora faça as pazes com isso e você transformará algo negativo em positivo.

A última coisa que queremos é reciclar essas antigas emoções. Nenhum de nós precisa se proteger de uma infância que já passou há muito tempo. Há muitas razões para explicar a dificuldades que temos em abrir mão das nossas emoções negativas. Elas são a ponta do iceberg. Toda vez que elas aparecem significa que há muito mais desses sentimentos guardados na nossa sombra. Isso é um mecanismo de sobrevivência. Quando encontramos meios de desfazer esse grude da negatividade, seremos mais desprendidos.

Algumas afirmações funcionam para tentar desfazer esse grude:
- Posso passar por isso. Não vai durar para sempre.
- Já me senti assim antes. Consigo lidar com isso.
- Ninguém jamais ganha no jogo de colocar a culpa no outro.
- Não estou sozinho. Posso ligar para alguém que me ajude a passar por esse momento ruim.
- Sou muito mais que meus sentimentos.

Se você conseguir transformar qualquer uma dessas afirmações em realidade, estará acrescentando-as às suas habilidades para lidar com a situação. Como fazer para torná-las realidade? Querendo que elas sejam reais. Todo sentimento que você tem se desloca de maneira invisível, rumo ao ambiente, afetando as pessoas ao redor, a sociedade e o mundo."

Então, se queremos mudar o que está fora de nós, o nosso ambiente de trabalho, os nossos relacionamentos para outros mais produtivos, temos mesmo de assumir a responsabilidade de nossa sombra, aquele lugar onde vamos depositando todas as nossas emoções que, ao longo do tempo, fomos reprimindo. Temos de deixar que esses sentimentos venham à superfície, fazer a integração deles, desenvolver outros sentimentos e, como consequência, uma mudança plena acontecerá dentro e fora de nós.

Informações tiradas do livro “O Efeito Sombra”, de Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Willianson.