Dentro de mim existe um lugar onde vivo inteiramente só
e é lá que se renovam as nascentes que nunca secam.
P.Buch

20 de agosto de 2011

Bastão

No Yoga há várias posturas (asanas) e cada uma delas traz um conteúdo físico, emocional, energético e espiritual. Esta semana estive praticando a postura do bastão, o “dandasana”. É uma postura que ficamos sentados com as pernas juntas, esticadas e pés alongados com as mãos sobre os joelhos e coluna ereta. Ufa! Pensei: moleza. Nem tanto. Percebi que para me sustentar era preciso ativar as coxas para que eu conseguisse o apoio necessário para que as costas não caíssem. Qualquer pessoa que ali me visse, pensaria que eu estava numa boa, sentada e descansando. Mas, na verdade, tudo começou a esquentar e comecei a suar. Parecia tão simples!

Lembrei da explicação da professora Rosângela sobre o bastão: é ele que nos dá apoio, sustentação. Fortalecemos nossas pernas para ficar em pé com sustentabilidade e para isso eu trago o bastão para dentro de mim. Eu me sustento nas minhas próprias pernas. O bastão nos dá autoconfiança. Eu confio em mim e fico em cima de mim.

Quantas vezes eu deixei de usar meu próprio bastão, quantas vezes o entreguei para outras pessoas. Quantas experiências precisei experimentar, por mais difíceis que fossem, para entender que esse bastão, essa sustentação existia dentro de mim. O bastão do outro pode me sustentar por alguns minutos, mas a confiança interna só terei se usar meu próprio bastão. Também não posso entregar o meu bastão para o outro, porque com isso eu não permito que o outro descubra sua própria sustentabilidade.

Agora compreendo tão bem o quão arrogantes somos algumas vezes ao achar que podemos mudar o outro, mudar a vida das outras pessoas ao darmos nosso bastão, a nossa sustentabilidade. Não só não permito que o outro descubra o seu próprio como, ao entregar meu bastão, me desequilibro e posso até mesmo cair. O outro é importante em nossa vida, mas não é o nosso complemento.

Passei bons anos de minha vida achando que podia mudar a vida de pessoas de minha família, por exemplo, para o que achava ser o melhor para elas e acabei entregando o meu bastão. O resultado é que não só eles continuaram a viver e ter as experiências que eles escolheram por si próprios como eu, além de não mudar suas vidas, me desequilibrei e fiquei tentando me achar na experiência.

Confesso que demoraram alguns anos para eu compreender que não mudamos ninguém. Que cada alma busca sempre suas próprias experiências para suas próprias aprendizagens. Podemos quanto muito inspirar o outro à medida em que vivemos nossas verdades apoiados em nossos próprios bastões.

Agora, aqui sentada nessa postura do bastão (Dandasana), com minhas costas queimando, minhas coxas vibrando, sinto uma onda de intensa emoção feita de compreensão.
Sustento-me um pouco mais nessa postura para que essa emoção vá se integrando em meu ser.
Depois desfaço a posição.
Relaxo meu corpo e, enquanto sinto os efeitos do asana, sinto uma tremenda gratidão de ter tido essa compreensão profundamente agora.

Água

Enquanto chove nesse sábado, olho a janela e decido colocar esse video pequeno mas muito sensível. Como parte de nosso processo de crescimento tomamos consciência de que vivemos integrados na natureza. Somos a natureza. 

14 de agosto de 2011

Foguinhos

Li um poema de um escritor uruguaio, Eduardo Galeano, que me remeteu àquela questão de sempre: quem somos nós? Corremos tanto no nosso dia a dia, nos envolvendo tanto com os eventos que vão e vem e acabamos achando que estamos aqui então para isso mesmo, resolver problemas, ganhar dinheiro para ter aquela televisão nova ou o novo modelo de celular. Criamos tantas necessidades e depois temos que mantê-las a um preço tão alto que acabamos por esquecer quem realmente somos e para que estamos nesse planeta, nesse momento da existência.

Temos tanto medo da falta que dedicamos toda a nossa vida para um trabalho que muitas vezes nem faz tanto sentido assim para nós. Nada de errado em dedicar grande tempo de sua vida para uma atividade, desde que ela satisfaça nossas partes emocional, física, psicológica e espiritual ou, pelo menos, que a gente contrabalance com algo a mais, pois é nesse balanço, nessa fluidez de nossas várias facetas da vida que encontraremos uma paz interna para podermos lidar com eventos tão diversos.

Não adianta perseguirmos somente situações prazerosas, a vida é feita de contrastes. O ideal é conseguirmos transitar pelas dores e prazeres aprendendo e iluminando-se com cada uma delas. Na maioria das vezes temos essa compreensão, mas temos dificuldades de colocar isso na prática. Como lidar com minhas partes física, emocional e espiritual se não tenho tempo para fazer mais nada, pois meu trabalho me exige uma dedicação intensa? E nos bloqueamos nessa pergunta e assim nos acomodamos.

As perguntas têm que ir mais além, nós temos de dar um passo em frente ou ficaremos vítima de nossa própria crença de “não tenho tempo para nada”. Boas perguntas seriam: “O que eu gostaria de fazer se tivesse mais tempo? Por que isso é importante para mim? Para onde eu quero ir com a minha rotina atual? Quais os prós e contras de ficar na posição atual?” E a partir daí, pensar em quais são as minhas possibilidades. Se não as tenho, como faço para criar essas possibilidades?

Seja qual for o caminho que escolhermos, é importante estar inteiros, conscientes de nossas várias facetas. Não somos só o nosso corpo físico, ou só nosso papel social, ou nossa profissão, ou nosso status, ou nossa crença limitante. Somos mais que isso.

Abaixo então o poema:

Um homem do povoado de Neguá no litoral da Colômbia
conseguiu subir no alto do céu e na volta contou.
Disse que tinha contemplado, lá de cima a vida humana
e disse que somos um mar de foguinhos.

“O mundo é isso”, revelou:
“um montão de gente,
Um mar de foguinhos.
Não existem dois foguinhos iguais.
Cada pessoa brilha com luz própria, entre as outras.
Existem fogos grandes e fogos pequenos
E fogos de todas as cores.

Existe gente de fogo sereno que nem fica sabendo do vento.
Existe gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas.
Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam.

Mas outros...
Outros ardem a vida com tanta vontade
Que não se pode olhá-los sem pestanejar
E quem se aproxima se incendeia.”

31 de julho de 2011

Sorte ou Azar?

Algumas vezes ficamos pensando porque é que está dando tudo errado na nossa vida, ou admiramos como estamos com sorte e tudo se encaixa tão bem. Ficamos imaginamos que é algo acontecendo fora de nós e nos admiramos com isso. Todo mundo já teve essa sensação de que quando algo positivo acontece, outras coisas começam a acontecer também positivamente e, ao contrário, quando algo limitante acontece, outros eventos “ruins” também começam a acontecer.

De fato, isso é uma verdade, mas nada vem do acaso e nem depende de termos sorte ou azar. O que acontece é que atraímos o que acreditamos, o que falamos e o que pensamos. Não somos vítimas e sim co-criadores de nossa própria vida: somos responsáveis por todos os eventos e todas as histórias que vivemos, sejam aquelas prazerosas ou aquelas doloridas.

Recentemente o cientista Mark Comings afirmou sobre o mar de possibilidades que temos: “Nossas crenças são o mais importante fator que constrói a realidade em nossas vidas. Apesar de vivermos em um oceano de abundância, se nós não pudermos crer nele, então não podemos experimentar esta abundância. Nossas crenças têm o poder de bloquear-nos e evitar que acessemos esses campos infinitos; mas se conseguirmos crer que estamos conectados a esta fonte infinita de amor, compaixão e abundância, descobriremos que, de fato, realmente estamos e será possível, para nós, aproveitar e canalizar esta energia infinita em nossas vidas”.

Sabemos que 90% da matéria é feita de espaço vazio, o que Einstein definiu de energia e 10% é formado de não vazio. Todas as pessoas têm, portanto, um campo eletromagnético que diferencia em formato. Já existem câmaras especiais que fotografaram o campo eletromagnético e através delas fazem estudos de seu comportamento. Nesses estudos constataram que:

O TAMANHO DO MEU CAMPO ELETROMAGNÉTICO
       =   O QUE EU PENSO   +   O QUE EU SINTO

Atraímos as situações em nossa vida de acordo com o que possuímos no nosso campo eletromagnético e não de acordo com o que “queremos”. Na verdade atraio situações em minha vida para validar aquilo que penso e sinto. Somos portanto responsáveis pelo que atraímos. Eu emito energia com uma frequência específica e eu atraio algo da mesma frequência.

Para nos ajudar a entender porque atraio determinada situação ou determinada pessoa seria ideal mapearmos as ações/atitudes que drenam energia ou acumulam energia. Quanto mais acúmulo energético a pessoa consegue, mais ela se torna atrativa. São aquelas pessoas que atraem mais facilmente os que chamamos de coincidência, sorte, oportunidades. Se houver uma insatisfação na vida ou uma falta de resolução aparecerão buracos no campo eletromagnético por onde haverá vazamento de energia.

Então como tampar o buraco eletromagnético? Aumentando a satisfação na vida, aumentando aquilo que nos dá energia e removendo aquilo que drena e desvia a nossa energia de construção e crescimento e que enfraquece nossas capacidades de receber o que é nosso, nos tornando a melhor pessoa que podemos ser hoje.

Somos pessoas de sucesso absoluto, pois somos e nossa vida é exatamente o que acreditamos ser.

Minha amiga Cristina me fala hoje de um filme que acabei de assistir e acho que cabe aqui indicar, pela leveza e beleza da mensagem e pela  "coincidência". O filme é The Shift.

30 de julho de 2011

Circo "Irmãos Almeida"

Circo Irmãos Almeida












Este é um banho quente de esperança e ansiedade.  Inconscientemente vejo meu pulmão se expandindo e a bronquite triste e cansada dá lugar a uma refrescante felicidade. Minha mãe traz o vestido de chita barata, ainda tirando a última linha com os dentes orgulhosos. Sacode-o, dando assim o último e definitivo retoque. Eu já enxuta no corpo fraco e magro, quase não caibo no vestido engomado de alegria.

O sol estala um cheiro de domingo! Meu pai, enorme, tira-me de seus bolsos longos da calça com vinco alguns trocados. Lá vou eu atravessar sozinha aquelas duas avenidas movimentadas. Enquanto caminho, meus ouvidos levam até meu coração, agora meio descompassado, a música daquele mundo cheio de brilho cores e irmãos.  Lá está a placa toda pomposa dizendo: “Circo Irmãos Almeida”.

Nem sei se o vermelho de meu rosto vai me impedir de entrar. Tantas pessoas! Tantas crianças a correr por baixo da lona e a pegar o melhor e mais alto lugar nas arquibancadas. E pensar que na noite anterior minha irmã Nadir ganhara o concurso de cantora....

Para refrescar minha emoção, vou ao menino de calças curtas com a cabeça escondida no boné que vende sorvete de palito para conseguir algum trocado para ir ao circo. O menino Maurício que hoje é o Squarisi, continua dando movimento as imagens paradas.

Ah! Mas eu gosto de ir devagarzinho, deixando meus pés cheirar a grama do chão. Ao entrar, meu coração arregala os olhos e engole aquela imensidão redonda, como se pudesse absorver de todo o universo, a beleza.

Maçã-do-Amor? É linda, mas não há magia. É sem graça. Pipoca? Gosto mais quando minha mãe faz dizendo: “Rebenta Pipoca Maria Sororoca”. E tem de ser três vezes.  Amendoim enroladinho? Tem no bar do seu Abílio, perto de minha casa, em frente ao circo no Parque Industrial. Mas aquela “sombrinha” colorida e cheia de balas dentro de cada gomo.... Ah! Esta sim me faz ser gente grande, me estufa o peito e o enche de ar.

Não entendo porque a maioria das crianças prefere a maçã-do-amor. Que amor pode haver numa bola que não cabe em sua boca e suja seu nariz?  A “sombrinha” não. É colorida, criativa, não toma chuva. Dá surpresas. Que prazer poder saborear o que lá dentro se esconde! Um mistério de delícias, sabor de circo.

Quanta gente está entrando! Preferia estar nas cadeiras lá em baixo. Ficam quase todas vazias. A Ritinha senta lá. A mãe dela dá aula no Grupo Escolar Felipe Cantúsio e ela estuda lá. Esses meninos correm muito para pegar o melhor lugar e eu fico pulando sentada na arquibancada como as pipocas de minha mãe. Tenho medo de cair. Menino é fogo! Atrapalha todas as brincadeiras e corre sobre as arquibancadas. Será que vou cair lá em baixo, no meio daquela serragem? Até hoje sinto o cheiro delas.

Os papéis de bala não jogo não. Vou usá-los para embrulhar pedrinhas e deixar a surpresa onde estava, dentro de cada gomo, e lá em casa vou brincar de ser vendedora de surpresas de circo.

O circo está cheio, como minha boca cheia de balas. Tudo em mim se esquece. Só há um acontecer de vidas, histórias e fantasias. Eu sou aquela história.

O Fredô e a Nhá-Tica com suas sardas e marias-chiquinhas chegam irreverentes, pulando alegres e me dizem: “Boa tarde, criançada!” e me faz rir e chorar. É que gritam muito suas alegrias e me dá medo.

De repente eles vão embora, dançando as nossas palmas e tudo vai ficando escuro para meus olhos começarem a ascender luzes coloridas que piscam e chamuscam todo o circo. E alguém diz: “E agora com vocês, aquela que canta e encanta...” Será que ela é mesmo uma mulher, ou um anjo dourado? Seu corpo brilha, voa, dança.   Ela canta para mim. Acho que gosta de mim. Joga-me uma flor. E ao tentar ir ao encontro dela, na confusão de todas as mãos e todos os gritos, não só não consigo o prêmio pessoal como despenco arquibancada abaixo como uma manga madura. O brilho acaba à medida que todas as luzes são acesas e as palmas com cheiro de serragem ecoam nos meus ouvidos.  O show acabou.

Os meninos começam a descer daquela cela de arquibancadas como se fossem patas de cavalos em cima de mim. Ninguém me vê lá embaixo assustada e com medo de me machucar. Como vou sair daqui?  A “sombrinha” quebrou, como vou poder brincar de vendedora de circo?

Pouco a pouco aquela bola azul vai se aquietando e meu medo aumentando. Alguém ouve uma criança chorando e vem me salvar do triste acontecido. Meu espanto vê o Fredô e a Nhá-Tica que quando não são o que são, são vendedores de surpresa.  Não sabia que se podia ser mais que uma só coisa.

Há um sabor de decepção ao vê-los humanos e inteligentes e uma vontade de correr e brincar nos bastidores de minha fantasia.

Surpresa, surpresa...  “Compre uma “sombrinha” cheinha de surpresas”!

Para compensar a decepção reveladora, me dão balas que não são surpresas e me fazem perguntas de gente grande. Me levam para casa. Atravessam-me a rua de volta.

Perdi a surpresa.  E o palhaço que mora dentro de mim, agora chora. Mas ganhei um ingresso. Domingo que vem tem mais.

25 de julho de 2011

Coexist


Delicadeza também faz parte das "Coisas da Vida"
                                              

23 de julho de 2011

Parar

Lembrei de mim criança brincando lá no quintal que parecia enorme da casa de minha mãe, debaixo da sombra arejada da parreira. Lá eu organizava umas latinhas ou caixinhas ou tampinhas de garrafas que serviam de pratinhos para bonecas feitas de sabugo de milho. Era um mundo de imaginação e criação com uma dimensão temporal totalmente diferente. As tardes eram longas e demoravam muito a passar, até que era chamada para tomar banho e jantar, lá pelas 6 horas da tarde. Tudo tinha ciclos. Era a parte da manhã na escola, depois o almoço com a família, depois o “arrumar a cozinha”, depois a lição de casa e depois toda uma eternidade debaixo da parreira. Daí vinha o banho, o jantar, a televisão era com a família, até o sono chegar. “Bença” mãe, bença pai”. “Deus te bençõe”. E a noite era longa.

Lá pelas tantas o galo cantava anunciando a manhã e a vida recomeçava preguiçosamente, com uma xícara de café com leite e pão e manteiga. E lá ia eu com minha malinha de couro com um caderno, um estojo e a cartilha Caminho Suave para o Grupo Escolar Felipe Cantúsio. E assim eu ia me transformando, fazendo perguntas e tendo algumas poucas respostas, insuficientes saciar toda a minha curiosidade em relação ao mundo e à vida.

Essa divagação toda foi para entender porque hoje o tempo parece correr tanto, porque todos estamos correndo, correndo, sem tempo para quase nada. Quantas pessoas que trabalham em empresas estão trabalhando mais do que as 8 horas firmadas no contrato, principalmente os mais jovens, que estão em suas melhores condições físicas, mentais e energéticas. Depositam no trabalho todo seu potencial e, muitas vezes, se frustram por não ter tempo para fazer outras coisas, coisas simples como, por exemplo, ver o pôr-do-sol ou ver o filho dançar na escola.

Nada de errado em trabalhar bastante desenvolvendo projetos que nos dão satisfação e desenvolvimento. Isso também nos energiza, nos dá vida quando sabemos que o que fazemos está em um contexto maior, que o que eu desenvolvo no meu dia-a-dia faz diferença para o planeta em que eu vivo, para a cidade em que eu moro, para meus companheiros de trabalho, para a minha família e para mim mesmo porque tudo está alinhado com meus valores.

Mesmo nesse contexto mais positivo, ainda assim, há que se refletir sobre a importância de parar. M. Scott Peck diz:
“Eu levo uma vida muito cheia e atarefada, e de vez em quando me perguntam:
Scotty, como é que você consegue fazer tudo o que faz?
A melhor resposta que posso dar é: passando pelo menos duas horas por dia sem fazer nada.”

Segundo o livro A Essencial Arte de Parar, “não se deve confundir ficar sem fazer nada com uma falta total de atividade. Não fazer nada é permitir que a vida aconteça – a sua vida. O objetivo de parar é avançar na direção que queremos, escolhendo o que é melhor para nós. Parar nos ajuda a ficar atentos à nossa vida e tomar consciência dos eventos que estamos vivendo. Ao parar nos acalmamos, principalmente quando nos sentimos sobrecarregados, sem saída. Parar não é fugir da vida nem evitar responsabilidades. É entrar na vida de maneira nova. É ter coragem de ir justamente onde estão nossos significados e valores e passar um tempo lá. Parar faz você ficar desperto e consciente do momento presente. Ajuda-o a recordar quem você é, de onde vem, para onde está indo e onde quer ir. Ajuda a recordar seus objetivos, ideais e sonhos originais.

Mesmo que você não obtenha respostas claras para muitas de suas grandes perguntas da vida, é vital continuar a recordar quais são as suas perguntas. Perder as suas perguntas é certamente se perder no caminho.

Uma vida excessivamente atarefada, distraída e dispersa também mata o poder da imaginação. Durante a pausa, a vida acontece, o valor e o significado adquirem forma, a alma aprofunda o seu alcance.”

Diz ele ainda que cada pessoa pode desenvolver seu próprio estilo de parar, podemos parar de diferentes modos e em diferentes momentos. “Algumas pessoas escolherão pausas breves como uma respiração, um momento a sós – que são ótimas e podem ser feitas em qualquer lugar e a toda hora, outras escolherão ir para uma partida de golfe, ou para a igreja, outras pelos momentos sabáticos que envolve olhar para a nossa competência, descobrir caminhos”.

Sabático é o afastamento do trabalho inspirado por uma motivação interna, objetivando uma revisão da vida pessoal ou profissional. Não importa a duração, se é de meses ou anos, nem o formato. Pode ser uma viagem de turismo, um curso no exterior, na verdade o que caracteriza um período sabático é o afastamento da rotina para verificar nossos recursos internos."

O importante então é estar consciente de que a vida é criada por causa das pausas. Existimos por causa das pausas. Se não houvesse pausas entre uma inspiração e outras nos sufocaríamos. “Parar então é importante para adquirirmos uma consciência mais elevada daquilo que nos cerca tanto perto quanto longe”.

E aqui eu fui longe... Ao tentar falar da importância de parar, no sentido de recuperar nossa própria vida, fui fazer uma pausa lá na linda parreira arejada no quintal de minha mãe no tempo em que eu era criança.

Chico Xavier certa feita foi consultado sobre como é que ele conseguia autografar mais de 2000 livros por noite,
depois das sessões habituais no Centro Espírita em que atuava, em Uberaba.
Com naturalidade, ele respondeu:
"Simplesmente vou autografando, de um em um..."

18 de julho de 2011

Frio e Ipês

Faz um tempo que não escrevo e descobri, vejam vocês, que existem mais de 5 leitores que frequentam esse blog. Confesso que fiquei feliz.

Não existe nenhuma razão para eu ficar esse tempo sem escrever nem falta de tempo, nem falta de assunto... nada. Simplesmente aconteceu. Mas, fazendo um autoestudo percebo algumas situações que mudam meu ritmo, como por exemplo o frio.

Quando o frio começou este ano resolvi vivê-lo de modo diferente, tentando atualizar minha crença em relação a ele. Normalmente é um período que fico meio hibernada, meu corpo, por não fazer os movimentos necessários, fica espremido e os músculos doloridos. Meu ânimo também muda e fica difícil criar qualquer coisa.

Bom, esse ano resolvi fazer alguma coisa para me sentir melhor nesse período. Primeiro e o mais importante, foram os exercícios diários de Yoga para alongar os músculos, usando a respiração e concentrando no meu corpo mesmo quando sentia frio. Outra coisa foi não reclamar e, ao contrário, compreender que o frio é um período do ritmo da natureza tão necessário quanto o calor. A outra coisa era colocar em dia todos os livros não lidos ou inacabados e fazer coisas que o frio não me impedisse de fazê-las. Aproveitei para ler os 8 livros que o curso de Yoga nos dá para fazer as resenhas e isso me empolgou muito porque um novo olhar se abriu para as “coisas da vida”, nome desse blog.

Aprendi desde a história da antiga civilização indiana pré-ariana (3.000 anos antes de Cristo), passando pelos ensinamentos dos yogues, onde deparei com conteúdos novos como, por exemplo, a formação de nosso universo, do nosso planeta e de nossa espécie e de como o amor e a reverência a esse amor fizeram com que tudo estivesse preparado para que eu entrasse nessa existência, para simplesmente experimentar as possibilidades de expansão, aprender que sou conectada ao Todo, de saber da minha origem e responder à pergunta do por que estou aqui, qual é a minha missão e quais ferramentas tenho para alcançar a meta de simplesmente me tornar quem eu sou.

Fui fazendo essa viagem de lá de minha cama no meio dos edredons e chás quentes, sentindo muita gratidão por essa possibilidade de aquecer minha alma no frio com tanto ensinamento.

Quando dirigia o carro para o trabalho pude ver dias absurdamente lindos e dourados e os Ipês, que eu tanto amo, se abrindo na estrada para a Unicamp, fazendo um arco que desconfiei que era “de propósito” para eu passar, e essa paisagem só dá pra ver no frio.

Ah, ok, o frio tem lá seus encantos. É uma xícara de chá feito no fogão e seu aroma perfumando minha casa, é o banho quente renovador, é a conversa agradável com amigos. Domingo fez quase calor e andar na Lagoa do Taquaral sem blusa de frio para mim foi um prazer silencioso indescritível.

Novamente meu laptop está no conserto e por isso o acesso é mais restrito, desconfio que ele também não gosta muito do frio.  Ok, trabalhamos nossa paciência olhando para outras paragens. E nesse domingo usando um outro laptop descobri que algumas pessoas perguntavam se eu não iria escrever mais no blog e me espantei de perceber que havia um tempão não escrevia. Pois bem, acho que retornei do frio sem ter “sofrido tanto” e com mais coisas para partilhar com vocês, meus amigos, amigos-alunos, família e talvez outros que eu nem saiba que frequentam esse blog.
           
Às vezes você sofre,
às vezes você é feliz.
Mas debaixo de tudo isso
a perfeição inata da sua vida se manifesta.
Dan Millman

29 de maio de 2011

Ser ou não Ser

Lembro-me de Cora Coralina quando vejo o que está acontecendo em Campinas em relação à Prefeitura. É que Cora Coralina dizia que a gente deve, quando sair de algum lugar, deixá-lo melhor de que quando entrou. Tão sábia, a linda Cora Carolina que aprendeu tudo fazendo as coisas do dia a dia e tirando daí as metáforas que encantaram sua vida.

No Yoga, que surgiu na Índia há milênios, aprendemos que existem algumas regras em textos sagrados que nos ensinam como devermos orientar as nossas relações com o mundo externo para vivermos um estado de consciência virtuoso. Algumas dessa regras são parecidas com os 10 mandamentos que aprendemos no cristianismo. Essas regras de conduta são verdadeiras em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo. Por exemplo: não roubar. Não roubar, é igual aqui no Brasil, no Japão ou na Finlândia; hoje, ontem ou na eternidade.

Ficamos indignados quando vemos a conduta das pessoas que estão no poder político e, sim, temos que nos indignar mesmo porque a sociedade não é suprida em suas necessidades básicas por conta desses desvios de caráter.

Mas acho que isso pode servir como uma inspiração para que nos observemos no dia a dia. Para saber quanto do “não roubar” eu ainda tenho de trabalhar dentro de mim. Por exemplo, quando escrevemos algo e não colocamos o autor daquela frase, ou daquele comentário deixando todos pensarem que é de nossa autoria. Isso é um roubo. Quando numa conversa não damos tempo do outro falar, estamos roubando o seu tempo. Quando nos apropriamos de ideias dos amigos de trabalho, quando fazemos ligações clandestinas (o chamado “gato”) de eletricidade ou de TV a cabo; quando eu furo a fila ou quando paro no lugar dos deficientes ou dos velhinhos. Roubamos também a paciência do outro. Não é o valor que se rouba, mas a atitude que fere nossa consciência. A lista é grande e o ideal é extirpar essas atitudes de dentro de nós.

O “roubar” está ligado ao fato de querermos ter algo que nos faz felizes, esquecendo que fazemos parte de um todo e que não somos separados de nada. Esquecemos que aquilo que faço é lançado no universo e, já que faço parte do universo, sou invadido por isso. Então a atitude de roubar faz com que eu esteja sempre sendo invadido pela falta.

“Não roubar” é não roubar nada, nem uma agulha sequer. Não é o caso de olhar só para o vizinho, nós temos que ser disciplinados quanto a isso. Temos que praticar ativamente, invertendo nossa tendência, removendo de dentro de nós essa conduta. Roubar um milhão de reais é a mesma coisa que roubar um real. A atitude é a mesma.

Se a gente vai se reestruturando quanto a isso, vamos permitindo uma transformação de nossos pensamentos, emoções. Não podemos permitir que nossa mente se disperse e esqueça o que estamos fazendo aqui.

"Para que uma árvore dê os seus frutos não basta plantar a semente, há que primeiro tratar do solo onde se vai semear." Swami Niranjanananda Saraswati

Não estamos aqui neste corpo físico só para TER coisas, estamos aqui para SER. Recebemos esse corpo físico, todo capacitado para pensar, sentir e fazer com a finalidade de podermos ter experiências nesse momento único da eternidade, para lembrarmos o que estamos fazendo aqui, para lembrarmos quem somos. Se eu não sei quem sou, se não sei o que estou fazendo aqui, então roubar significa muito pouco. Mas se sei quem sou e se sei que faço parte do universo, eu não preciso roubar nada, porque tudo que preciso está aqui, no universo, no meu ser.

Comecei esse post querendo falar de Cora Coralina que me inspira tanto e de repente as palavras foram para outro caminho. Agora, fico pensando em como amarrar a primeira frase com a última. Do meu quarto olho pela janela e vejo o céu avermelhado, lindo. Fico ali um pouco agradecendo essa imagem e penso em Cora Carolina e penso que também quero sair desse mundo e deixá-lo melhor do que quando eu cheguei.

"Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."  Cora Coralina

25 de maio de 2011

Por todas as nossas relações

Entrevista com Kaká Werá
"Quanto mais o indivíduo tem consciência de si, mais ele se percebe como um grupo."
"A consciência é ampliada quando conseguimos entrar no espaço vazio dentro de nós"

18 de maio de 2011

PROFESSOR HERMÓGENES


Namaste!
No último final de semana tive o prazer de conhecer de pertinho o Professor Hermógenes lá na casa Siloé, onde o Instituto de Yogaterapia fez um evento em sua homenagem. Com 90 anos, o Professor conserva uma alegria genuína que contagia a todos. Através de sua coerência e sabedoria diante das questões da vida, que muito me emocionaram, ele transmite a paz de viver uma vida simples, com profundidade, amor e leveza.
E diz: “Não deixe sua felicidade depender daquilo que não depende de você.Veja o Bem, ouça o Bem, fale o Bem e faça o Bem. E destacou que a sociedade ideal, onde seríamos felizes, é aquela onde cultivássemos a verdade, a justiça, a paz, a não violência e o amor.

Com bom humor ensinou: “Quando for dizer: eu sou (alguma coisa) capriche bem no final dessa frase. Não permita que pensamentos negativos invadam sua mente, tirando sua paz interna.

O Professor Hermógenes fala sempre que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal, de fazer parte da norma. As pessoas querem se encaixar num padrão. Ter o mesmo carro, o mesmo perfume, o mesmo tipo de casa de lazer. A normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes.

Repetiu várias vezes que para nossas preocupações sem soluções devemos ter em mente o seguinte mantra e vivenciá-lo:

Eu entrego
Eu confio
Eu aceito
Eu agradeço

O Professor é uma inspiração no tocante à retidão, à ética, à amorosidade, à disciplina e à coerência.

Foi um momento muito especial para mim e agradeço ao Márcio e à Rosângela que organizaram todo o evento com muito carinho para que nós ficássemos aconchegados e usufruíssemos de tanta beleza, delicadeza e quietude





 "Se te contentas com os frutos ainda verdes,
toma-os, leva-os, quantos quiseres.
Se o que desejas, no entanto, são os mais saborosos,
maduros, bonitos e suculentos,
deverás ter paciência.

Senta-te sem ansiedades.
Acalma-te, ama, perdoa, renuncia,
medita e guarda silêncio.
Aguarda.
Os frutos vão amadurecer."

Professor Hermógenes

10 de maio de 2011

Dona Irene


Irene fazendo broa
Dona Irene, 89 anos no dia 12 de maio, quinta-feira. Seu forte é a broa que ela faz para esperar os filhos, netos e bisnetos que vão tomar café da tarde com ela num sábado ou domingo. Ah, mas ela não faz só a broa não. Lava roupa, cozinha, vai ao supermercado andando devagarinho pelo bairro, encontra conhecidos e trocam meia dúzia de palavras, limpa toda casa e cuida de meu pai. Às vezes me pergunto como que ela ainda aguenta fazer tudo isso e ela me responde com simplicidade que pega a vassoura e ora: “Deus dai-me força para deixar essa casa limpa pro Senhor me visitar. É daí que tiro forças para fazer tudo o que faço”. Bom, nem preciso dizer que quando me bate uma pequena preguiça, lembro de minha mãe e a preguiça vai embora rapidinho.

Meu pai, admirado, me conta que ela faz ginástica na igreja do Parque Industrial duas vezes por semana, lugar onde umas 200 pessoas se encontram com o propósito de se movimentar. Quando o professor não vai ou está de férias ela faz os exercícios ali mesmo na sala da casa, num colchonete que ela mesma fez. Minha mãe é uma das mais velhas do grupo e se orgulha de dizer que consegue fazer quase todos os exercícios, inclusive alguns que suas colegas mais novas não conseguem. Ela não usa óculos, não precisa de um. Não toma remédio, tem suas próprias ervas que planta no fundo do quintal. Não consigo contar quantas pessoas ela, junto com meu pai, já ajudaram e, por isso, a casa deles sempre tem uma visita ou outra que nunca deixam de dar uma passadinha por lá para saber como estão dona Irene e seu João.

Dia 12 de maio ela faz 89 anos e o que ela mais quer é ver toda família lá, paparicando. E eu quero chegar nessa idade com a mesma vontade que ela tem de ajeitar o mundo para as pessoas, de ter essa fé que a mantém em pé e fazer o que tem que ser feito, de amar incondicionalmente a todos.
Parabéns dona Irene! Muitos anos de vida bem vivida.

Abaixo um poema do CD de Márcio Assunção "Mantras do Coração" inspirado numa oração da Atroposofia que me lembra minha mãe:

                Mãos
Mãos que abençoam e fazem o Bem
Mãos que trabalham e não se detem
Mãos que amorosa e a todos amparam
Mãos que rezam e sempre rezaram
Mãos que se elevam num gesto profundo
São dessas mãos que precisa o mundo
Mundo que faz a cura estar
nas mãos de quem sabe doar Amor
Amor.... Amor... Amor...

9 de maio de 2011

Habilidades

Descobrir nossas habilidades e colocá-las em práticas é um grande feito.
E realizar isso com otimismo e alegria faz com que novas oportunidades apareçam.
Não é o que você faz, mas como você faz é que te tira da "normose".

O video abaixo me inspira a ir um pouco mais além daquilo que já faço.

ou

6 de maio de 2011

Dia das Mães

Coincidências à parte, perto do dia das mães, e eu acabo de ler essa citação de um livro que estou estudando para fazer uma resenha para o meu curso. O autor conta uma experiência de relaxamento e diz:

“...Essas preliminares têm como objetivo acalmar a mente, e logo meus pensamentos turbilhonam menos. Sempre consciente da respiração que vai e que vem, eu me maravilho por estar vivo, aqui e agora, num corpo humano, corpo que é formidável simplesmente por estar vivo. Depois tomo consciência de que essa vida veio até mim através de minha mãe, que a recebeu da sua, depois de sua avó, e assim por diante. Tento achar a mais remota e feliz lembrança de minha mãe, e se há conflito – é mais freqüente do que se crê – passo a geração precedente. Tento também rever minha avó, se a conheci, para que tudo seja bem concreto. Depois, me conscientizo da linhagem ininterrupta e anônima das mães e, com amor, agradeço-lhes por terem assim transmitido a tocha da vida até mim. Não um agradecimento superficial, mas uma onda de amor. Inserido nesse passado sinto-me ligado a todo o passado da vida. Todas as experiências da vida estão contidas em meus genes, em minha vida. E que incrível soma de acasos foi necessária para que eu esteja aqui e agora.”

No Yoga há vários ásanas (posturas) onde abaixamos a cabeça simbolizando que eu reconheço a minha existência e a importância fundamental que minha mãe e meu pai têm nessa minha existência. Isso, temos que honrar! Honrar o que ficou atrás para eu poder seguir com a cabeça erguida e com humildade. Eu plantei o meu corpo. Meu corpo é perfeito e se torna mais perfeito ainda se eu honro o que fui. Só vou para frente quando honro o que vem antes de mim.

Assim, tocada com o que acabo de ler, deixo aqui minha profunda gratidão e reconhecimento a todas as mulheres (Irene, Silvana, Francisca, Roza...), mães de mães que me possibilitaram estar nessa experiência aqui e agora com toda a vida e experiências vividas por todas elas presentes em mim. Portanto somos todas ligadas como somos ligadas ao planeta, ao universo, ao mar, à floresta, à terra, ao fogo e ao ar. Tudo isso vive dentro de mim.

1 de maio de 2011

Yoga e Pão

Minha amiga Lilly em perfeita postura
Bom, eu não sou grande cozinheira, mas adoro cozinhar e curtir todo o ciclo do alimento. A terra acolhe a semente e dá os nutrientes, a chuva supre de água, o sol dá o calor necessário e tudo relaxa e descansa enquanto a semente desabrocha, cresce e se torna o que ela é em essência. O homem cuida da terra e, através do conhecimento milenar, sabe exatamente que deve colher no momento em que a vida está no ápice. Depois, há os caminhos percorridos até chegar na minha cozinha, onde escolho - e me encanto com - os formatos, as cores, as texturas e o cheiro. Aí misturo todos eles me lembrando das bruxas de tempos imemoriais, aquelas que eram sacerdotisas, curandeiras, professoras, poetizas e parteiras e que foram queimadas na Idade Média porque sua “ciência” fazia concorrência com a religião dominante. Na verdade, ser bruxa era reivindicar para a mulher o direito de ter poder e, para o homem, o de reconhecer a presença da divindade na feminilidade. Bom, voltando à cozinha, ao misturar os ingredientes, adoro ver a alquimia acontecendo, as cores se misturando, os sabores se complementando.

Esse sábado fui fazer o pão de aveia que aprendi com a Nani, uma cozinheira de mão-cheia que mora nas montanhas. Eu já tinha feito uma vez e ficou lindo.Desta vez, apesar de todo meu amor, de todo carinho... não deu certo. Como? Eu fiz tudo certinho. Não deu certo. Não cresceu. Não cozinhou por dentro...

Senti a maior frustração.Fiquei observando essa frustração e me lembrei que também tenho esse sentimento quando não consigo fazer perfeitamente algumas posições do Yoga. Por que não sai perfeito se me esforço, se pratico todos os dias e se faço com tanto amor? Então o sentimento é o mesmo.O Yoga diz que devemos observar nosso corpo e respeitá-lo. Não faremos nada que possa machucá-lo ou passar do seu limite hoje, e é através dele em harmonia com a mente que nos ligamos a estados expansivos de consciência. As posturas finais não devem ser o objetivo do praticante, mas sim a atenção no movimento, estar presente observando-se sem julgamento, para descobrir a inteligência, a consciência que está escondida no corpo. Mas meu ego ainda fica me dizendo para fazer as posturas iguais às do meu colega ao lado ou ainda iguais às da minha amiga e professora de Yoga, Lilly. Daí a frustração.

Por que juntei meu pão de aveia com a minha prática de Yoga? Bom, é que nos dois casos o sentimento de frustração apareceu. Nas práticas, cada dia acordo dizendo hoje é um novo dia e vou fazer cada movimento com toda a minha atenção como seu fosse o primeiro dia. Permito-me esse recomeçar e respeito todos os outros dias e as outras tentativas como fazendo parte de minha história corporal. Alguns dias consigo um pouco mais, outros um pouco menos, mas o estar presente, estar aberta para uma expansão é o que verdadeiramente me faz sentir com alegria que estou no caminho certo. Assim a frustração enfraquece e me sinto em harmonia, em paz.

Ah, sim, e o pão de aveia? Enfraqueci a frustração e, neste domingo de manhã, depois de minha prática e de dar duas voltas na Lagoa do Taquaral com o Ed, fui fazer um novo pão, com um novo sentimento, com concentração e presente no que estava fazendo. E esse deu certo.
Pão de Aveia
O pão se faz por sua bondade, com sua ajuda, com sua imaginação que flui através de você. Com a massa sob suas mãos, você a transforma em pão. Este é o motivo pelo qual, fazer pão é tão gratificante.

Tudo está conduzindo você, empurrando-o, instruindo-o, levando-o para o conhecimento supremo e perfeito. Isto quer dizer que não há enganos. Você pode fazê-lo de maneira diferente da próxima vez, mas isto é porque o faz assim desta vez. Perfeito, mesmo que diga: pus mais disto, pouco daquilo. É você, e, por favor, seja você mesmo. Ofereça-se. Cozinhar não está simplesmente na língua, no palato. Está no corpo inteiro, fluindo da virilha e do peito, pelos braços e pelas mãos.

Uma receita não pertence a ninguém. Dada a mim, eu a dou a você. Somente um guia, somente um esqueleto. Você deve cobri-lo de acordo com sua natureza e desejo. Sua vida, seu amor trarão estas palavras à plena criação. Isto não pode ser ensinado. Você já sabe. Por isso, cozinhe, ame, sinta, crie.

(The Tassajara Bread Book – Edward Espe Brawn)

20 de abril de 2011

Gostei desse video que fala das qualidades que já temos em nós e que precisamos tomar consciência disso. Está em inglês com a legenda também em inglês com duração de 5:11.

13 de abril de 2011

A Vida

Meu notebook quebrou novamente e foi para o conserto: uma semana sem ele, sem acesso e tentando reformular minha rotina. Confesso que sobrou tempo para fazer coisas diferentes, mas as outras ficaram atrasadas, como responder e-mails por exemplo. Assim pude me deliciar nos meus livros que estão empilhados porque vou comprando e esperando um tempo para poder lê-los.

Estou então lendo um deles e vou colocar aqui alguns trechos de um capítulo que gostei muito, cujo título é: “Tudo o que está aqui está lá, o que não está aqui não está em lugar nenhum”

... O universo vive, cada estrela está viva no pleno sentido da palavra. Como parte do Todo, eu participo do Todo. Não somos separados do resto dos seres vivos, perdidos num minúsculo planeta, ínfima poeira cósmica impulsionada no ínfimo interestelar gelado. Somos partes integrantes da vida desde sua origem, sob todas as suas formas.

Causar dano a qualquer forma de vida é causar dano à sua própria: a ecologia se torna cósmica. A árvore, por exemplo, é bem mais do que produtora de madeira e pranchas, ela é um ser vivo. Não somos separados da árvore e nem da floresta. Uma forma de consciência vive nela, mesmo que não seja concebível pelo nosso intelecto. A água que compreende todos os líquidos, também capta todos os ritmos cósmicos. Assim há bilhões de anos a Lua comanda e ritma o fluxo e refluxo das enormes massas oceânicas, esculpindo pouco a pouco as orlas marítimas, mas principalmente, acalentando a vida, influenciando todos os nossos ritmos vitais. A matéria viva impregnada na água é muito sensível aos ritmos cósmicos: em meu sangue e até em minhas células, há minimarés. A Vida se manifestou graças ao Sol: é de sua luz e sua energia que ela extrai sua força.

Eu me maravilho por estar vivo, aqui e agora, num corpo humano: corpo que é formidável por estar simplesmente vivo. Se no cérebro estou otimista, relaxado e sereno, esse clima impregnará todo o meu corpo, até a última célula do dedinho do pé! E vice e versa. Assegurar corretas condições de vida para as células as faz felizes, otimistas e serenas. Se ao contrário, o acúmulos de erro de minha vida me fez doente, ser-me-á preciso curar cada célula antes de estar verdadeiramente curada.

A vida que palpita em mim é tão antiga e tão nova quanto no primeiro dia da criação. Eu sou essa vida que atravessou bilhões de anos. Todo poder e toda a inteligência da vida estão presentes em mim, aqui e agora. Todas as experiências da vida estão contida em meus genes, em minha vida. Minha vida individual torna-se extraordinária.

Tudo se trata de tomarmos consciência dessa coisa maravilhosa que é a Vida e sentir-se levado por ela, sentir-se parte indissociável de toda a vida do planeta. Vinculado a essa força invencível, nada mais pode me acontecer e tanto o dinamismo quanto a incrível inteligência da vida estão aqui, presentes em mim.”

Bom, nem foi tão ruim assim ficar sem meu notebook. Em meio a tantas notícias trágicas de televisão, também desfrutei dessas deliciosas idéias do livro das quais me identifico e que compreendo um pouquinho mais a cada dia de minha vida....

10 de abril de 2011

Monja Coen


Monja Coen
Quando li o que a Monja Coen falou sobre o Japão, fiquei imaginando quanto ainda temos que aprender com relação a nós mesmos. Que não somos separados de nada. Que tudo que fazemos nos afeta de alguma maneira. Coloco na íntegra a entrevista da monja:


Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: Kokoro ou Shin que significa coração-mente-essência.

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras. A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima. A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos- mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem.

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia? me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

8 de abril de 2011

RESPIRAR EM MARESIAS

Estive num lugar lindo em Maresias, por nove dias, entrando em contato com minha respiração.

Renascimento é uma técnica simples de respiração que nos dá um grande bem estar, desfazendo os nós energéticos, soltando as tensões que acumulamos durante nossa vida e, portanto, nos fazendo experimentar uma conexão interna com nós mesmos.

Desse modo, começamos a viver mais conscientes com tudo que acontece em nossa vida e de como escolhemos coisas que são ditadas pelas nossas crenças.

O que pensamos até agora cria as experiências que temos nesse momento. Então, se escolhermos pensamentos mais expansivos podemos criar experiências de vida mais expansivas também, buscando aquilo que queremos.

Nesse lugar muito bonito fui me apropriando dia a dia dos meus processos internos e percebendo como funciono, tomando contato com velhos padrões de certo e errado e, à medida que respirava conscientemente, ficava mais livre para experimentar um estado de expansão muito agradável.
Respirar conscientemente faz com que entremos em contato com tudo que registramos em nosso corpo, emoção, sentimento, pensamento os quais suprimimos ou rejeitamos, nos levando a repetir as mesmas velhas experiências. Com a respiração solta, fluída e sem tensões tomamos contato com nosso estado natural.

Nesses nove dias compreendi que qualquer coisa que nos aconteça, qualquer assunto que comece a fazer parte de nossa vida, mesmo os que a gente considere mais doloridos, qualquer coisa, temos sempre um outro jeito mais expansivo de nos ver. Qualquer coisa que experimentamos na vida é sempre uma configuração da nossa própria vitalidade. Ao olhar dessa maneira percebemos o que realmente sentimos, ouvimos e vemos, e acolhemos qualquer que seja a experiência.

A respiração consciente tem a ver com a troca de energia com o universo.