Dentro de mim existe um lugar onde vivo inteiramente só
e é lá que se renovam as nascentes que nunca secam.
P.Buch

24 de setembro de 2011

Mente

Este sábado participei do Yoga é Luz no Sesc. Neste ano o evento foi todo dedicado ao Professor Hermógenes. A palestra da Rosângela foi sobre a meditação.  E lá estava eu pensando em como minha mente é tagarela e como poderia eu fazer para descansar a minha mente. Até mesmo para aquietá-la ela se agita pensando em como fazer isso.

Então ouvi que não devemos brigar para aquietar nossa mente e sim observá-la, detectar o que a faz ficar tão agitada. Detectar significa que encontramos o caminho para nos libertar de pensamentos que não mais precisamos, de ideias que nos limitam. 

Muitas vezes temos esses pensamentos por puro hábito – hábito da mente de viver aprisionada, por simplesmente vivermos no senso comum da vida, sem darmos um passo a mais para descobrirmos um novo ingrediente para de nossas vidas. O material que me tira do centro precisa ser identificado. Vivemos na ignorância. Esquecemos que viemos para esse mundo não para sermos bonzinhos, mas para sermos melhores, para melhorar. 

Portanto podemos ter a intenção todos os dias pela manhã de:  “Farei tudo para melhorar”. “Minha mente está cheia de luz e não há espaço para o que não me faz bem.”  “Hoje vou evitar tudo o que não me leva a minha melhora.”   “Eu nasci neste lugar com essas possibilidades, porque precisava disso para me melhorar, para me tornar quem eu sou. Tudo o que eu tenho é perfeito para o que eu vim fazer aqui.

Quando eu faço isso, eu começo a educar a minha mente não permitindo que ela fique confusa.

Mesmo ouvindo coisas tão bonitas minha mente ainda se agitava, questionando, racionalizando, organizando. Mas foi ao prestar atenção nos meus sentidos, e respirar conscientemente é que senti a calma na mente, algo libertador, inteiro, suave começa a acontecer. Ainda tenho um longo caminho pela frente de aprendizado e se eu fizer esse movimento todos os dias, talvez a meditação aconteça, se tiver que acontecer.

Professor Hermógenes diz que somos como uma casa. As portas e janelas são nossos sentidos. Se quisermos meditar precisamos fechar as portas e janelas para voltarmos a nós mesmos e deixar lá fora o que é de fora.

Além da palestra também tivemos as práticas e relaxamento. Foi um sábado de muita delicadeza e suavidade, finalizando com mantra:
  “que todos os seres sejam felizes e vivam em paz para sempre.”

23 de setembro de 2011

Cores

Assim começa a história, do livro “Para se ter uma Floresta" de meu amigo João Proteti  que eu não vejo faz um tempão. Encontrei esse livro e me lembrei de toda delicadeza que ele usa em seus trabalho de desenhos e histórias. Tão criativo, fez um livro que é, na verdade, uma grande ilustração, um livro pôster  Há muitos passarinhos e muitas árvores, mas nenhuma árvore é igual a outra e nenhum passarinho é igual ao outro.

Li uma entrevista dele sobre esse livro e adorei quando ele fala sobre a caixa de lápis de cor, pois para mim até hoje a caixa de lápis de cor tem um encanto e mistério, de onde brotam toda a criação. Nosso universo talvez tenha saído de uma caixa de lápis cor.

Diz ele: Sabe, desde pequeno que os lápis verde e azul sempre acabam primeiro nas minhas caixas de lápis de cor. Depois de adulto é que vim perceber e saber que sempre fui ecológico, sem saber que era. Sempre desenhei árvores, céu, arco-íris, caminho, chuva, passarinho, montanha, planície, mas nunca tive essa preocupação de acordar ou conscientizar outras pessoas para a questão da ecologia. Tudo que faço, faço porque preciso fazer, por mim. Claro que se as pessoas se conscientizarem da sua importância como ser ecológico vendo qualquer trabalho meu, fico satisfeito. Desenho árvores e pássaros desde sempre e acho que eles estavam prontos e armazenados aqui dentro. Neste livro desenhei e colori um a um, com tamanha alegria que me esqueci de contar o tempo. Não sei quantos lápis usei, mas foram muitos. Tão bom tê-los esparramados na mesa por seis meses e fazê-los virar árvores, passarinhos, chuva, semente...

Os passarinhos não são baseados em passarinhos reais. Quem me dera que eu fizesse passarinhos belos como os de Deus! E eu gosto de todos, por igual.

O video abaixo é da música "Passaredo" - letra de Chico Buarque e música de Francis Hime que fala o nome de muitos pássaros.


19 de setembro de 2011

SENSO COMUM


Flor de Lotus
Líder tibetano do budismo, Dalai Lama esteve em São Paulo e falou para milhares de pessoas. Disse que o caminho da violência é infrutífero e defendeu a desmilitarização mundial, que começa pelo desarmamento interno, onde raiva, ódio, medo e ganância são as primeiras causas da violência. Para isso precisamos colocar atenção ao nosso mundo interno emocional e descortinar nossa capacidade de lidar com essas emoções negativas. Disse que o cultivo de valores internos forma a base da vida feliz. Isso deve ser feito através da educação, não pela pregação (religiosa) e que é importante que esses conceitos tenham abrangência universal. 

“Precisamos ensinar, do jardim de infância à faculdade, que a moralidade é o caminho da felicidade. O sistema educacional moderno presta somente atenção no desenvolvimento do cérebro e não no desenvolvimento moral” - completou.

Dalai Lama sai do senso comum, expande nossos horizontes e nos faz ver com clareza que cultivar valores internos é o caminho para nos tornarmos mais integrais. E a educação precisa passar pela moralidade. De que adianta a estrutura política, por exemplo, se as pessoas que a compõem não têm os valores morais como setas que orientam suas decisões? De que adianta ser um médico se não se compreende o que é a vida? De que adianta ser professor se não aprendeu que o aprendizado só acontece se soubermos quem somos e quais valores farão parte de nossa existência? De que adianta ser um engenheiro que não impregna em suas construções as suas próprias construções internas? Ou ainda um psicólogo que não reconhece suas próprias sombras? De que adianta uma grande empresa que não tem como valores a compreensão de que somos todos parte de uma só engrenagem e que tudo o que fizermos terá consequência sobre nós mesmos?

Muitos mais cômodo para nós é permanecer no senso comum, do tipo “todo mundo rouba, então tenho que tirar algum proveito disso”, ou “como vou ensinar bem, ou atender um paciente bem, se não ganho o suficiente para isso?” Falamos tanta coisa durante o dia que já nem pensamos mais no que estamos dizendo e reforçamos nosso senso comum. Expressões como: “a culpa é do chefe”, “homens são todos iguais”, “não tenho tempo”, “não consigo”, “rouba mais faz”, “a professora me persegue”, “coitado do outro”... e tantas outras refletem nossa crença limitante. E a gente continua falando isso reforçando cada vez mais, esquecendo que nossas palavras são vibrações que saem a dançar pelo universo e, como num rodopio, voltam para nós mesmos. Depois reclamamos que não saímos do lugar, que não somos felizes, que a vida é dura e outras crenças mais limitantes ainda. Pode ajudar, ao verbalizarmos uma dessas crenças, perguntarmos: “Que mais?...” e em seguida: “Que mais? ...” até que cheguemos na essência daquele valor. Sempre podemos ir mais além. Sempre.

Sair do senso comum, refletir em nossas crenças e transformá-las fazem parte de nosso autoconhecimento, de descobrir nossos valores e de saber qual é o alicerce sobre o qual eu construo minha existência. Somos seres com infinitas possibilidades.

Uma poderosa ferramenta para nos ajudar a gerir com habilidade a nossa vida é perguntar antes de cada ato se isso nos trará felicidade. Isso vale desde a hora de decidir se vamos ou não usar drogas até se vamos ou não comer aquele terceiro pedaço de torta de banana com creme. (Dalai Lama)

Tanto no cristianismo quanto nos vedas (religião antiga da Índia) falam sobre condutas morais que norteiam nossa caminhada, como por exemplo, Não mentir, não Roubar, a não-violência, etc. São leis universais independentemente de raça, religião, cor, nação, política, sexo, idade etc.

Se ficarmos no senso comum, pensaremos: o político rouba e eu não a violência é a guerra, é o bandido da rua. E ponto final. Não transformamos nada, não expandimos nossa consciência. O que se propõe é ir mais além. É olhar para dentro e ver como a violência, a mentira, o roubar, se manifesta internamente. Eu não roubo o banco, mas eu não aviso o garçom que ele me deu troco a mais, eu roubo o espaço do outro no trabalho, a paciência do outro... e se formos expandindo veremos que temos muitas facetas do ato de roubar que julgamos só estar no outro. Então a partir dessa autoanálise eu posso transformar a mim com reflexos para o mundo.

Dalai Lama é uma inspiração que resgata nossas verdades essências mais básicas.

“Se você quer transformar o mundo, experimente primeiro promover o seu aperfeiçoamento pessoal e realizar inovações no seu próprio interior. Estas atitudes se refletirão em mudanças positivas no seu ambiente familiar. Deste ponto em diante, as mudanças se expandirão em proporções cada vez maiores. Tudo o que fazemos produz efeito, causa algum impacto.” (Dalai Lama)
Namastê - o Deus que está em mim saúda o Deus que está em você

15 de setembro de 2011

Sensibilidade

Em "Coisas da Vida" também há espaço para a sensibilidade.  Este video me lembra quando morava na comunidade de Nazaré. Um dia fomos caminhar por perto e a Evelyn, querida amiga, começou a tocar um instrumento e algumas vaquinhas começaram a se aproximar. Eu que sou um tanto urbana, fiquei com medo, mas Evelyn com sua risada genuína logo me acalmou: "Zezé, não se assuste, elas adoram música."   E eu fiquei tão tocada que a imagem nunca mais saiu de minha cabeça. E agora esse vídeo me fez voltar a mesma emoção.

8 de setembro de 2011

João

Tenho recebido este texto da internet e acho bem bonito.

“Não estás deprimido, estás distraído, por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado. Não fizeste um só cabelo de tua cabeça, portanto não podes ser dono de nada. Além disso, a vida não te tira coisas, a vida te liberta de coisas. Te alivia para que voe mais alto, para que alcances a plenitude. Do útero ao túmulo, vivemos numa escola, por isso, o que chamas de problemas são lições. Não perdeste nada, aquele que morre simplesmente está adiantado em relação a nós, porque para lá vamos todos. Além disso, o melhor dele, é o amor, segue em teu coração”. Facundo Cabral

E, por algum motivo, penso no meu pai. Já falei dele aqui no blog algumas vezes. De como é corajoso, de como ele é otimista etc. Sempre sinto um aperto no coração quando vejo todos os seus desafios do dia a dia. Tomar banho, por exemplo, para ele não é uma simples tarefa como para mim. Tem todo um ritual de precisar inclusive de ajuda de minha mãe. Andar é quase uma missão impossível, mas ainda consegue se mover até o quintal para ver suas ferramentas que organiza com tanto zelo e lava a louça do almoço apoiado na pia da cozinha. Por não ouvir, precisamos escrever para que ele nos entenda. E algumas outras coisas mais. Enfim, desafios que só uma pessoa forte pode ter sem esmorecer. E meu pai é assim. Nunca reclama de nada e agradece tudo o que acontece. Agradece quem o ajuda a viver seus desafios, e ainda tenta levantar alguém que está deprimido ou triste.

Ainda hoje, ele, com uma crise de gota (doença reumatólogica), sentindo muita dor e percebendo que minha mãe, sua companheira que neste setembro completa 70 anos de casados, estava triste e de cabeça baixa, disse a ela: “Irene, deixe que a minha dor eu vivo, você só cuida de mim. Não viva a minha dor. Ergue a cabeça que a vida é pra frente.” Eu fiquei ouvindo isso sem respirar e pensando como meu pai vivia suas experiências com tanta sabedoria. Quanto aprendizado ele consegue acessar com aquele corpo frágil. Ele com certeza não é só aquele corpo frágil, ele muito mais que isso. É uma pessoa que compreendeu que cada um tem suas próprias experiências de aprendizado. Ele aceita o que a vida lhe dá, ele confia que tudo vai dar certo, ele entrega suas experiências para a vida, agradece o que tem hoje e consegue ver e ser solidário às pessoas em piores condições.

O resultado disso é que seus filhos, netos, bisnetos, parentes, vizinhos todos o admiram por seu bom humor diante de tantos desafios.

Eu, apesar de ficar triste, fico orgulhosa de ter uma pessoa perto de mim que sabe aproveitar suas experiências para se tornar cada vez melhor. Como foi que ele aprendeu essa fórmula?

Por isso pensei em meu pai ao ler o poema acima, pois ele é o exemplo vivo de que a vida não o tirou nada, só acrescentou mais possibilidades de se expandir mais na compreensão do que é a essência do viver.

Que eu aprenda com ele como viver com tanta dignidade.

4 de setembro de 2011

SOL

Hoje fez um sol lindo e eu me deixei banhar por ele olhando aquela amplidão que tenho o privilégio de ver do meu terracinho, aquele em que eu e o Edmilson passamos horas jogando conversa fora ou simplesmente observando estrelas. Enquanto ele lia seu livro, eu quase adormeci pensando em quantos milagres temos durante o dia e o sol é um milagre que “percorre” o planeta dando vida, a nossa vida.

Existe uma sequência de movimentos do yoga que se chama Saudação ao Sol (veja abaixo). A milenar sabedoria indiana nos ensina que o Sol é o coração do nosso mundo e que gera luz, energia e calor para a Terra e que as pessoas têm uma espécie de “sol interior” e que deve estar sempre em contato com o Sol exterior que é a força capaz de integrar todos os homens por meio de sua luz, poder e grandeza.

29 de agosto de 2011

Solidariedade


Yaseturo Yamada - engenheiro aposentado e autor da idéia
Já vi solidariedade em tempos de furacão, enchente, de guerra, de fome, mas dessa natureza, nunca tinha visto. É infinito o nosso poder de expandir mais nossa criatividade, nossas possibilidades, nosso servir, nossa amorosidade...

Coloco aqui na íntegra o post do blog de Marta Medeiros, mostrando um grande exemplo de solidariedade, de consciência de que fazemos parte de um grande todo.


Marta Medeiros – Espírito de Coletividade

Recebi um texto sem autoria, e só tive como comprovar sua autenticidade através do google, que ora avaliza os fatos, ora nos faz de bobos. Mas, ao ler seu conteúdo, tive forte impressão de que é verdade.

O fato: um grupo de 200 aposentados japoneses, engenheiros em sua maioria, está se oferecendo para substituir trabalhadores mais jovens no perigoso trabalho de manutenção da usina nuclear de Fukushima, que foi seriamente afetada pelo terremoto de quatro meses atrás. Os reparos envolvem altos níveis de radioatividade cancerígena, como se sabe.

Em entrevista à BBC, o voluntário Yaseturu Yamada, de 72 anos, diz que tem procurado convencer o governo sobre as vantagens de se aceitar a mão de obra da terceira idade. Conclui ele: “Em média, devo viver mais uns 15 anos. Já um câncer vindo da radiação levaria de 20 a 30 anos para se manifestar. Logo, nós que somos mais velhos temos menos risco de desenvolver a doença.”

Ou seja: cidadãos que estão na faixa entre 60 e 70 anos, muitos deles inativos, querem dar sua última contribuição à sociedade e, ao mesmo tempo, liberar os jovens de um trabalho que lhes subtrairia muitos anos produtivos de vida, enquanto que, para homens de idade mais avançada, não haveria diferença significativa.

Essa é uma notícia que deve fazer refletir a todos nós. Não se trata apenas de generosidade, mas de consciência. Os idosos japoneses não estão sendo bonzinhos, e sim exercendo o sentido de responsabilidade, que a eles é muito comum. Estão pensando na sociedade como algo que só funciona em conjunto, e não individualmente.

Acredito que quando a gente faz o bem para si mesmo, com ética e respeito à lei, sem ônus para nossos pares, está fazendo também o bem para todos, mas não basta: é preciso ir além, desconectar-se das vantagens pessoais para pensar no futuro, no que temos para doar em benefício daqueles que têm mais a perder.

Um jovem de 18 anos pode contrair câncer aos 38 se trabalhar numa usina nucelar acidentada. A sociedade japonesa perde se abrir mão da força de trabalho de cidadãos de 38 anos. A família japonesa também. É essa visão macroscópica da funcionalidade que faz evoluir um país.

Dizem que a gente fica com o coração mole à medida que o tempo passa. Não é por causa de coração mole que esses aposentados japoneses estão se candidatando a um trabalho insalubre. É porque estão acostumados a transformar intempéries em oportunidades, tanto pessoais quanto coletivas, sem distinção. Coração mole tenho eu que me emociono ao ver como seria fácil ser grande, se tivéssemos a grandeza necessária.

28 de agosto de 2011

Bom humor


Recebi esse video de um amigo amante de vinho, que sabe de meu entusiasmo por Yoga. Acho que ele cabe aqui neste blog "Coisas da Vida" pelo bom humor e pela delicadeza nas imagens....

Tempo

Nossa! O tempo está indo cada vez mais rápido! Nossa! Já é setembro! Nossa! O ano já acabou!

Quantas vezes ouvimos ou dizemos isso? Ficamos tão impressionados que achamos que o tempo está andando mais rápido que antigamente.

Mário Quintana escreveu:
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

No nosso dia-a-dia, às vezes sentimos que não temos tempo para nada, nem mesmo para dar conta das atividades no nosso trabalho. Está ocorrendo um fenômeno comum nas empresas, por exemplo, onde os funcionários têm muito trabalho e, por terem competência, lhes é passado mais trabalho. E como é humanamente impossível executá-los de forma orgânica, surge então a frustração de ter trabalhado muito, dedicado muitas horas, inclusive abrindo mão dos horários de descanso e, no fim, o trabalho não foi totalmente concluído ou só foi concluída parte dele.

Mas não só no trabalho profissional sentiremos essa frustração, mas também em nossa vida pessoal quando o que planejamos não se concretiza, quando o rumo de algum evento é diferente daquilo que organizamos previamente. A frustração então é gerada por criarmos expectativas que não se realizam, provocando mal-estar.

Como em tudo em nossa vida, temos escolhas. Se observarmos e enfrentarmos a frustração, sem negá-la ou evitá-la, podemos observar que ela é uma forte força de movimento e não de estagnação como a gente imagina num primeiro momento. Grandes realizações da história da civilização aconteceram em momentos de frustração e sofrimento − como, por exemplo, as pestes e as vacinas, a penicilina, as inúmeras aplicações tecnológicas da ciência etc. O fato de nos sentirmos imperfeitos e incompletos nos acorda, nos motiva a procurar sempre a perfeição.

Segundo Héctor Rafael Lisondo, psicólogo, na trilha em busca da evolução “tem-se muito mais contato com a frustração do que com a satisfação e, mais ainda, pode-se dizer que a segunda é consequência da capacidade para lidar com a primeira. Até de uma perspectiva psicológica, também se pode afirmar que a nossa missão como pais na formação dos nossos filhos não é o compromisso com a felicidade deles, mas com o seu desenvolvimento, e este nem sempre implica em felicidade ou alegria. Freud acreditava que o homem caminha em duas direções: a busca de evitar o sofrimento e o desprazer e a procura da experiência intensa de prazer. Convém aos líderes conhecer esta realidade e tomar contato com o inevitável sofrimento que os acomete assim como aos seus seguidores, na trilha cotidiana da vida organizacional. Está ali, adormecido, um rico potencial de criatividade e desenvolvimento que, se bem canalizado, pode vir a resultar em realizações. Trata-se de ajudar as pessoas para que as inevitáveis contrariedades não as conduzam à desesperança, à resignação ou à depressão e possam lutar para transformar o limão em limonada, a fazer um bom negócio a partir de um mal negócio. Todavia, não se trata de apelar a exortações ocas e/ou hipócritas, mas de criar oportunidades para poder falar sobre esses dolorosos e inconfessos sentimentos, que de outra maneira, se permanecerem ocultos, acabam por produzir fantasias de incompetência, e/ou impotência, e/ou negação. 

Para isso é necessário que a função da liderança inclua a construção de relações de respeito e confiança com os seguidores. Trata-se da disposição para investir permanentemente em relacionamentos de qualidade, capazes de enfrentar a verdade com coragem − não apenas a verdade relacionada ao mundo externo, mas principalmente o contato com a verdade oculta na interioridade própria e dos seguidores, aquela que nos poderia dizer o que realmente somos. Trata-se da coragem para contestar crenças e paradigmas profundamente enraizados na nossa cultura organizacional, como o de querer ocultar as fraquezas e parecer o que não se é − tentativa essa que, em geral, se constitui apenas como ledo engano, uma vez que acalma a ansiedade às custas de inibir o pensamento e a criatividade.

Estava eu aqui falando do tempo e me enveredei a falar de frustrações. De qualquer forma as coisas são todas ligadas. Novamente aqui, a resposta é interna: ela está na observação do que eu sinto, do que eu experimento física, emocional e espiritualmente. Esses conteúdos nos levam a paragens mais expansivas porque temos que olhar para nossas “velhas formas do viver”, para nossos valores, para como eu quero viver a minha vida, o que é realmente importante neste momento da minha experiência humana. Nesse movimento criamos uma força interna que nos impulsiona para buscar saídas criativas que podem, como disse o poeta, “transformar as velhas formas do viver”.

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!...
(Gilberto Gil)

20 de agosto de 2011

Bastão

No Yoga há várias posturas (asanas) e cada uma delas traz um conteúdo físico, emocional, energético e espiritual. Esta semana estive praticando a postura do bastão, o “dandasana”. É uma postura que ficamos sentados com as pernas juntas, esticadas e pés alongados com as mãos sobre os joelhos e coluna ereta. Ufa! Pensei: moleza. Nem tanto. Percebi que para me sustentar era preciso ativar as coxas para que eu conseguisse o apoio necessário para que as costas não caíssem. Qualquer pessoa que ali me visse, pensaria que eu estava numa boa, sentada e descansando. Mas, na verdade, tudo começou a esquentar e comecei a suar. Parecia tão simples!

Lembrei da explicação da professora Rosângela sobre o bastão: é ele que nos dá apoio, sustentação. Fortalecemos nossas pernas para ficar em pé com sustentabilidade e para isso eu trago o bastão para dentro de mim. Eu me sustento nas minhas próprias pernas. O bastão nos dá autoconfiança. Eu confio em mim e fico em cima de mim.

Quantas vezes eu deixei de usar meu próprio bastão, quantas vezes o entreguei para outras pessoas. Quantas experiências precisei experimentar, por mais difíceis que fossem, para entender que esse bastão, essa sustentação existia dentro de mim. O bastão do outro pode me sustentar por alguns minutos, mas a confiança interna só terei se usar meu próprio bastão. Também não posso entregar o meu bastão para o outro, porque com isso eu não permito que o outro descubra sua própria sustentabilidade.

Agora compreendo tão bem o quão arrogantes somos algumas vezes ao achar que podemos mudar o outro, mudar a vida das outras pessoas ao darmos nosso bastão, a nossa sustentabilidade. Não só não permito que o outro descubra o seu próprio como, ao entregar meu bastão, me desequilibro e posso até mesmo cair. O outro é importante em nossa vida, mas não é o nosso complemento.

Passei bons anos de minha vida achando que podia mudar a vida de pessoas de minha família, por exemplo, para o que achava ser o melhor para elas e acabei entregando o meu bastão. O resultado é que não só eles continuaram a viver e ter as experiências que eles escolheram por si próprios como eu, além de não mudar suas vidas, me desequilibrei e fiquei tentando me achar na experiência.

Confesso que demoraram alguns anos para eu compreender que não mudamos ninguém. Que cada alma busca sempre suas próprias experiências para suas próprias aprendizagens. Podemos quanto muito inspirar o outro à medida em que vivemos nossas verdades apoiados em nossos próprios bastões.

Agora, aqui sentada nessa postura do bastão (Dandasana), com minhas costas queimando, minhas coxas vibrando, sinto uma onda de intensa emoção feita de compreensão.
Sustento-me um pouco mais nessa postura para que essa emoção vá se integrando em meu ser.
Depois desfaço a posição.
Relaxo meu corpo e, enquanto sinto os efeitos do asana, sinto uma tremenda gratidão de ter tido essa compreensão profundamente agora.

Água

Enquanto chove nesse sábado, olho a janela e decido colocar esse video pequeno mas muito sensível. Como parte de nosso processo de crescimento tomamos consciência de que vivemos integrados na natureza. Somos a natureza. 

14 de agosto de 2011

Foguinhos

Li um poema de um escritor uruguaio, Eduardo Galeano, que me remeteu àquela questão de sempre: quem somos nós? Corremos tanto no nosso dia a dia, nos envolvendo tanto com os eventos que vão e vem e acabamos achando que estamos aqui então para isso mesmo, resolver problemas, ganhar dinheiro para ter aquela televisão nova ou o novo modelo de celular. Criamos tantas necessidades e depois temos que mantê-las a um preço tão alto que acabamos por esquecer quem realmente somos e para que estamos nesse planeta, nesse momento da existência.

Temos tanto medo da falta que dedicamos toda a nossa vida para um trabalho que muitas vezes nem faz tanto sentido assim para nós. Nada de errado em dedicar grande tempo de sua vida para uma atividade, desde que ela satisfaça nossas partes emocional, física, psicológica e espiritual ou, pelo menos, que a gente contrabalance com algo a mais, pois é nesse balanço, nessa fluidez de nossas várias facetas da vida que encontraremos uma paz interna para podermos lidar com eventos tão diversos.

Não adianta perseguirmos somente situações prazerosas, a vida é feita de contrastes. O ideal é conseguirmos transitar pelas dores e prazeres aprendendo e iluminando-se com cada uma delas. Na maioria das vezes temos essa compreensão, mas temos dificuldades de colocar isso na prática. Como lidar com minhas partes física, emocional e espiritual se não tenho tempo para fazer mais nada, pois meu trabalho me exige uma dedicação intensa? E nos bloqueamos nessa pergunta e assim nos acomodamos.

As perguntas têm que ir mais além, nós temos de dar um passo em frente ou ficaremos vítima de nossa própria crença de “não tenho tempo para nada”. Boas perguntas seriam: “O que eu gostaria de fazer se tivesse mais tempo? Por que isso é importante para mim? Para onde eu quero ir com a minha rotina atual? Quais os prós e contras de ficar na posição atual?” E a partir daí, pensar em quais são as minhas possibilidades. Se não as tenho, como faço para criar essas possibilidades?

Seja qual for o caminho que escolhermos, é importante estar inteiros, conscientes de nossas várias facetas. Não somos só o nosso corpo físico, ou só nosso papel social, ou nossa profissão, ou nosso status, ou nossa crença limitante. Somos mais que isso.

Abaixo então o poema:

Um homem do povoado de Neguá no litoral da Colômbia
conseguiu subir no alto do céu e na volta contou.
Disse que tinha contemplado, lá de cima a vida humana
e disse que somos um mar de foguinhos.

“O mundo é isso”, revelou:
“um montão de gente,
Um mar de foguinhos.
Não existem dois foguinhos iguais.
Cada pessoa brilha com luz própria, entre as outras.
Existem fogos grandes e fogos pequenos
E fogos de todas as cores.

Existe gente de fogo sereno que nem fica sabendo do vento.
Existe gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas.
Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam.

Mas outros...
Outros ardem a vida com tanta vontade
Que não se pode olhá-los sem pestanejar
E quem se aproxima se incendeia.”

31 de julho de 2011

Sorte ou Azar?

Algumas vezes ficamos pensando porque é que está dando tudo errado na nossa vida, ou admiramos como estamos com sorte e tudo se encaixa tão bem. Ficamos imaginamos que é algo acontecendo fora de nós e nos admiramos com isso. Todo mundo já teve essa sensação de que quando algo positivo acontece, outras coisas começam a acontecer também positivamente e, ao contrário, quando algo limitante acontece, outros eventos “ruins” também começam a acontecer.

De fato, isso é uma verdade, mas nada vem do acaso e nem depende de termos sorte ou azar. O que acontece é que atraímos o que acreditamos, o que falamos e o que pensamos. Não somos vítimas e sim co-criadores de nossa própria vida: somos responsáveis por todos os eventos e todas as histórias que vivemos, sejam aquelas prazerosas ou aquelas doloridas.

Recentemente o cientista Mark Comings afirmou sobre o mar de possibilidades que temos: “Nossas crenças são o mais importante fator que constrói a realidade em nossas vidas. Apesar de vivermos em um oceano de abundância, se nós não pudermos crer nele, então não podemos experimentar esta abundância. Nossas crenças têm o poder de bloquear-nos e evitar que acessemos esses campos infinitos; mas se conseguirmos crer que estamos conectados a esta fonte infinita de amor, compaixão e abundância, descobriremos que, de fato, realmente estamos e será possível, para nós, aproveitar e canalizar esta energia infinita em nossas vidas”.

Sabemos que 90% da matéria é feita de espaço vazio, o que Einstein definiu de energia e 10% é formado de não vazio. Todas as pessoas têm, portanto, um campo eletromagnético que diferencia em formato. Já existem câmaras especiais que fotografaram o campo eletromagnético e através delas fazem estudos de seu comportamento. Nesses estudos constataram que:

O TAMANHO DO MEU CAMPO ELETROMAGNÉTICO
       =   O QUE EU PENSO   +   O QUE EU SINTO

Atraímos as situações em nossa vida de acordo com o que possuímos no nosso campo eletromagnético e não de acordo com o que “queremos”. Na verdade atraio situações em minha vida para validar aquilo que penso e sinto. Somos portanto responsáveis pelo que atraímos. Eu emito energia com uma frequência específica e eu atraio algo da mesma frequência.

Para nos ajudar a entender porque atraio determinada situação ou determinada pessoa seria ideal mapearmos as ações/atitudes que drenam energia ou acumulam energia. Quanto mais acúmulo energético a pessoa consegue, mais ela se torna atrativa. São aquelas pessoas que atraem mais facilmente os que chamamos de coincidência, sorte, oportunidades. Se houver uma insatisfação na vida ou uma falta de resolução aparecerão buracos no campo eletromagnético por onde haverá vazamento de energia.

Então como tampar o buraco eletromagnético? Aumentando a satisfação na vida, aumentando aquilo que nos dá energia e removendo aquilo que drena e desvia a nossa energia de construção e crescimento e que enfraquece nossas capacidades de receber o que é nosso, nos tornando a melhor pessoa que podemos ser hoje.

Somos pessoas de sucesso absoluto, pois somos e nossa vida é exatamente o que acreditamos ser.

Minha amiga Cristina me fala hoje de um filme que acabei de assistir e acho que cabe aqui indicar, pela leveza e beleza da mensagem e pela  "coincidência". O filme é The Shift.

30 de julho de 2011

Circo "Irmãos Almeida"

Circo Irmãos Almeida












Este é um banho quente de esperança e ansiedade.  Inconscientemente vejo meu pulmão se expandindo e a bronquite triste e cansada dá lugar a uma refrescante felicidade. Minha mãe traz o vestido de chita barata, ainda tirando a última linha com os dentes orgulhosos. Sacode-o, dando assim o último e definitivo retoque. Eu já enxuta no corpo fraco e magro, quase não caibo no vestido engomado de alegria.

O sol estala um cheiro de domingo! Meu pai, enorme, tira-me de seus bolsos longos da calça com vinco alguns trocados. Lá vou eu atravessar sozinha aquelas duas avenidas movimentadas. Enquanto caminho, meus ouvidos levam até meu coração, agora meio descompassado, a música daquele mundo cheio de brilho cores e irmãos.  Lá está a placa toda pomposa dizendo: “Circo Irmãos Almeida”.

Nem sei se o vermelho de meu rosto vai me impedir de entrar. Tantas pessoas! Tantas crianças a correr por baixo da lona e a pegar o melhor e mais alto lugar nas arquibancadas. E pensar que na noite anterior minha irmã Nadir ganhara o concurso de cantora....

Para refrescar minha emoção, vou ao menino de calças curtas com a cabeça escondida no boné que vende sorvete de palito para conseguir algum trocado para ir ao circo. O menino Maurício que hoje é o Squarisi, continua dando movimento as imagens paradas.

Ah! Mas eu gosto de ir devagarzinho, deixando meus pés cheirar a grama do chão. Ao entrar, meu coração arregala os olhos e engole aquela imensidão redonda, como se pudesse absorver de todo o universo, a beleza.

Maçã-do-Amor? É linda, mas não há magia. É sem graça. Pipoca? Gosto mais quando minha mãe faz dizendo: “Rebenta Pipoca Maria Sororoca”. E tem de ser três vezes.  Amendoim enroladinho? Tem no bar do seu Abílio, perto de minha casa, em frente ao circo no Parque Industrial. Mas aquela “sombrinha” colorida e cheia de balas dentro de cada gomo.... Ah! Esta sim me faz ser gente grande, me estufa o peito e o enche de ar.

Não entendo porque a maioria das crianças prefere a maçã-do-amor. Que amor pode haver numa bola que não cabe em sua boca e suja seu nariz?  A “sombrinha” não. É colorida, criativa, não toma chuva. Dá surpresas. Que prazer poder saborear o que lá dentro se esconde! Um mistério de delícias, sabor de circo.

Quanta gente está entrando! Preferia estar nas cadeiras lá em baixo. Ficam quase todas vazias. A Ritinha senta lá. A mãe dela dá aula no Grupo Escolar Felipe Cantúsio e ela estuda lá. Esses meninos correm muito para pegar o melhor lugar e eu fico pulando sentada na arquibancada como as pipocas de minha mãe. Tenho medo de cair. Menino é fogo! Atrapalha todas as brincadeiras e corre sobre as arquibancadas. Será que vou cair lá em baixo, no meio daquela serragem? Até hoje sinto o cheiro delas.

Os papéis de bala não jogo não. Vou usá-los para embrulhar pedrinhas e deixar a surpresa onde estava, dentro de cada gomo, e lá em casa vou brincar de ser vendedora de surpresas de circo.

O circo está cheio, como minha boca cheia de balas. Tudo em mim se esquece. Só há um acontecer de vidas, histórias e fantasias. Eu sou aquela história.

O Fredô e a Nhá-Tica com suas sardas e marias-chiquinhas chegam irreverentes, pulando alegres e me dizem: “Boa tarde, criançada!” e me faz rir e chorar. É que gritam muito suas alegrias e me dá medo.

De repente eles vão embora, dançando as nossas palmas e tudo vai ficando escuro para meus olhos começarem a ascender luzes coloridas que piscam e chamuscam todo o circo. E alguém diz: “E agora com vocês, aquela que canta e encanta...” Será que ela é mesmo uma mulher, ou um anjo dourado? Seu corpo brilha, voa, dança.   Ela canta para mim. Acho que gosta de mim. Joga-me uma flor. E ao tentar ir ao encontro dela, na confusão de todas as mãos e todos os gritos, não só não consigo o prêmio pessoal como despenco arquibancada abaixo como uma manga madura. O brilho acaba à medida que todas as luzes são acesas e as palmas com cheiro de serragem ecoam nos meus ouvidos.  O show acabou.

Os meninos começam a descer daquela cela de arquibancadas como se fossem patas de cavalos em cima de mim. Ninguém me vê lá embaixo assustada e com medo de me machucar. Como vou sair daqui?  A “sombrinha” quebrou, como vou poder brincar de vendedora de circo?

Pouco a pouco aquela bola azul vai se aquietando e meu medo aumentando. Alguém ouve uma criança chorando e vem me salvar do triste acontecido. Meu espanto vê o Fredô e a Nhá-Tica que quando não são o que são, são vendedores de surpresa.  Não sabia que se podia ser mais que uma só coisa.

Há um sabor de decepção ao vê-los humanos e inteligentes e uma vontade de correr e brincar nos bastidores de minha fantasia.

Surpresa, surpresa...  “Compre uma “sombrinha” cheinha de surpresas”!

Para compensar a decepção reveladora, me dão balas que não são surpresas e me fazem perguntas de gente grande. Me levam para casa. Atravessam-me a rua de volta.

Perdi a surpresa.  E o palhaço que mora dentro de mim, agora chora. Mas ganhei um ingresso. Domingo que vem tem mais.

25 de julho de 2011

Coexist


Delicadeza também faz parte das "Coisas da Vida"
                                              

23 de julho de 2011

Parar

Lembrei de mim criança brincando lá no quintal que parecia enorme da casa de minha mãe, debaixo da sombra arejada da parreira. Lá eu organizava umas latinhas ou caixinhas ou tampinhas de garrafas que serviam de pratinhos para bonecas feitas de sabugo de milho. Era um mundo de imaginação e criação com uma dimensão temporal totalmente diferente. As tardes eram longas e demoravam muito a passar, até que era chamada para tomar banho e jantar, lá pelas 6 horas da tarde. Tudo tinha ciclos. Era a parte da manhã na escola, depois o almoço com a família, depois o “arrumar a cozinha”, depois a lição de casa e depois toda uma eternidade debaixo da parreira. Daí vinha o banho, o jantar, a televisão era com a família, até o sono chegar. “Bença” mãe, bença pai”. “Deus te bençõe”. E a noite era longa.

Lá pelas tantas o galo cantava anunciando a manhã e a vida recomeçava preguiçosamente, com uma xícara de café com leite e pão e manteiga. E lá ia eu com minha malinha de couro com um caderno, um estojo e a cartilha Caminho Suave para o Grupo Escolar Felipe Cantúsio. E assim eu ia me transformando, fazendo perguntas e tendo algumas poucas respostas, insuficientes saciar toda a minha curiosidade em relação ao mundo e à vida.

Essa divagação toda foi para entender porque hoje o tempo parece correr tanto, porque todos estamos correndo, correndo, sem tempo para quase nada. Quantas pessoas que trabalham em empresas estão trabalhando mais do que as 8 horas firmadas no contrato, principalmente os mais jovens, que estão em suas melhores condições físicas, mentais e energéticas. Depositam no trabalho todo seu potencial e, muitas vezes, se frustram por não ter tempo para fazer outras coisas, coisas simples como, por exemplo, ver o pôr-do-sol ou ver o filho dançar na escola.

Nada de errado em trabalhar bastante desenvolvendo projetos que nos dão satisfação e desenvolvimento. Isso também nos energiza, nos dá vida quando sabemos que o que fazemos está em um contexto maior, que o que eu desenvolvo no meu dia-a-dia faz diferença para o planeta em que eu vivo, para a cidade em que eu moro, para meus companheiros de trabalho, para a minha família e para mim mesmo porque tudo está alinhado com meus valores.

Mesmo nesse contexto mais positivo, ainda assim, há que se refletir sobre a importância de parar. M. Scott Peck diz:
“Eu levo uma vida muito cheia e atarefada, e de vez em quando me perguntam:
Scotty, como é que você consegue fazer tudo o que faz?
A melhor resposta que posso dar é: passando pelo menos duas horas por dia sem fazer nada.”

Segundo o livro A Essencial Arte de Parar, “não se deve confundir ficar sem fazer nada com uma falta total de atividade. Não fazer nada é permitir que a vida aconteça – a sua vida. O objetivo de parar é avançar na direção que queremos, escolhendo o que é melhor para nós. Parar nos ajuda a ficar atentos à nossa vida e tomar consciência dos eventos que estamos vivendo. Ao parar nos acalmamos, principalmente quando nos sentimos sobrecarregados, sem saída. Parar não é fugir da vida nem evitar responsabilidades. É entrar na vida de maneira nova. É ter coragem de ir justamente onde estão nossos significados e valores e passar um tempo lá. Parar faz você ficar desperto e consciente do momento presente. Ajuda-o a recordar quem você é, de onde vem, para onde está indo e onde quer ir. Ajuda a recordar seus objetivos, ideais e sonhos originais.

Mesmo que você não obtenha respostas claras para muitas de suas grandes perguntas da vida, é vital continuar a recordar quais são as suas perguntas. Perder as suas perguntas é certamente se perder no caminho.

Uma vida excessivamente atarefada, distraída e dispersa também mata o poder da imaginação. Durante a pausa, a vida acontece, o valor e o significado adquirem forma, a alma aprofunda o seu alcance.”

Diz ele ainda que cada pessoa pode desenvolver seu próprio estilo de parar, podemos parar de diferentes modos e em diferentes momentos. “Algumas pessoas escolherão pausas breves como uma respiração, um momento a sós – que são ótimas e podem ser feitas em qualquer lugar e a toda hora, outras escolherão ir para uma partida de golfe, ou para a igreja, outras pelos momentos sabáticos que envolve olhar para a nossa competência, descobrir caminhos”.

Sabático é o afastamento do trabalho inspirado por uma motivação interna, objetivando uma revisão da vida pessoal ou profissional. Não importa a duração, se é de meses ou anos, nem o formato. Pode ser uma viagem de turismo, um curso no exterior, na verdade o que caracteriza um período sabático é o afastamento da rotina para verificar nossos recursos internos."

O importante então é estar consciente de que a vida é criada por causa das pausas. Existimos por causa das pausas. Se não houvesse pausas entre uma inspiração e outras nos sufocaríamos. “Parar então é importante para adquirirmos uma consciência mais elevada daquilo que nos cerca tanto perto quanto longe”.

E aqui eu fui longe... Ao tentar falar da importância de parar, no sentido de recuperar nossa própria vida, fui fazer uma pausa lá na linda parreira arejada no quintal de minha mãe no tempo em que eu era criança.

Chico Xavier certa feita foi consultado sobre como é que ele conseguia autografar mais de 2000 livros por noite,
depois das sessões habituais no Centro Espírita em que atuava, em Uberaba.
Com naturalidade, ele respondeu:
"Simplesmente vou autografando, de um em um..."

18 de julho de 2011

Frio e Ipês

Faz um tempo que não escrevo e descobri, vejam vocês, que existem mais de 5 leitores que frequentam esse blog. Confesso que fiquei feliz.

Não existe nenhuma razão para eu ficar esse tempo sem escrever nem falta de tempo, nem falta de assunto... nada. Simplesmente aconteceu. Mas, fazendo um autoestudo percebo algumas situações que mudam meu ritmo, como por exemplo o frio.

Quando o frio começou este ano resolvi vivê-lo de modo diferente, tentando atualizar minha crença em relação a ele. Normalmente é um período que fico meio hibernada, meu corpo, por não fazer os movimentos necessários, fica espremido e os músculos doloridos. Meu ânimo também muda e fica difícil criar qualquer coisa.

Bom, esse ano resolvi fazer alguma coisa para me sentir melhor nesse período. Primeiro e o mais importante, foram os exercícios diários de Yoga para alongar os músculos, usando a respiração e concentrando no meu corpo mesmo quando sentia frio. Outra coisa foi não reclamar e, ao contrário, compreender que o frio é um período do ritmo da natureza tão necessário quanto o calor. A outra coisa era colocar em dia todos os livros não lidos ou inacabados e fazer coisas que o frio não me impedisse de fazê-las. Aproveitei para ler os 8 livros que o curso de Yoga nos dá para fazer as resenhas e isso me empolgou muito porque um novo olhar se abriu para as “coisas da vida”, nome desse blog.

Aprendi desde a história da antiga civilização indiana pré-ariana (3.000 anos antes de Cristo), passando pelos ensinamentos dos yogues, onde deparei com conteúdos novos como, por exemplo, a formação de nosso universo, do nosso planeta e de nossa espécie e de como o amor e a reverência a esse amor fizeram com que tudo estivesse preparado para que eu entrasse nessa existência, para simplesmente experimentar as possibilidades de expansão, aprender que sou conectada ao Todo, de saber da minha origem e responder à pergunta do por que estou aqui, qual é a minha missão e quais ferramentas tenho para alcançar a meta de simplesmente me tornar quem eu sou.

Fui fazendo essa viagem de lá de minha cama no meio dos edredons e chás quentes, sentindo muita gratidão por essa possibilidade de aquecer minha alma no frio com tanto ensinamento.

Quando dirigia o carro para o trabalho pude ver dias absurdamente lindos e dourados e os Ipês, que eu tanto amo, se abrindo na estrada para a Unicamp, fazendo um arco que desconfiei que era “de propósito” para eu passar, e essa paisagem só dá pra ver no frio.

Ah, ok, o frio tem lá seus encantos. É uma xícara de chá feito no fogão e seu aroma perfumando minha casa, é o banho quente renovador, é a conversa agradável com amigos. Domingo fez quase calor e andar na Lagoa do Taquaral sem blusa de frio para mim foi um prazer silencioso indescritível.

Novamente meu laptop está no conserto e por isso o acesso é mais restrito, desconfio que ele também não gosta muito do frio.  Ok, trabalhamos nossa paciência olhando para outras paragens. E nesse domingo usando um outro laptop descobri que algumas pessoas perguntavam se eu não iria escrever mais no blog e me espantei de perceber que havia um tempão não escrevia. Pois bem, acho que retornei do frio sem ter “sofrido tanto” e com mais coisas para partilhar com vocês, meus amigos, amigos-alunos, família e talvez outros que eu nem saiba que frequentam esse blog.
           
Às vezes você sofre,
às vezes você é feliz.
Mas debaixo de tudo isso
a perfeição inata da sua vida se manifesta.
Dan Millman