Dentro de mim existe um lugar onde vivo inteiramente só
e é lá que se renovam as nascentes que nunca secam.
P.Buch

26 de fevereiro de 2012

Cozinhar

Às vezes eu me aventuro na cozinha e se não surgem grandes pratos e se não me fixo no resultado, confesso que é uma atividade de muito relaxamento. A expectativa do resultado gera ansiedade e nos faz ficar fora do presente, no momento da execução de todo processo. As cores me deliciam, bem como os perfumes, texturas de todos os ingredientes. Lembro da minha admiração e encantamento quando minha mãe pediu para eu cortar um mamão pela metade e percebi alí o desenho de uma estrela! Lembro de Maria Preta quando vejo as garrafinhascheias de água dentro das mixiricas e não me canso de ver aquele vermelho da beterraba e a cor da abóbora e a delicadeza das flores de brócolis. Como pode haver sabores tão diferentes em folhas verdes vindo do mesmo quintal generoso, onde minha mãe plantava e eu regava toda tarde? Ainda ouço o som do feijão na peneira de minha mãe, e o cheiro do cural que vinha do som do debulhar do milho. Eram sons que, por harmonizarem com nosso som interno, nos relaxavam.

A planta com toda sua variedade é o ancestral da humanidade mais antigo e nelas provavelmente estão contidas todas as memórias do universo.

Claro que, hoje, parte do processo de cozinhar já vem pronta, mas mesmo assim, brinco na cozinha com essas cores, som, texturas contidas no alimento que dão vida a cada uma de nossas células.

Somos ligados a todos os seres humanos através dessa alimentação que vem da mesma origem, com as mesmas substâncias.

Comer é um ato divino e alquímico. Trazemos para nossas células todo nutriente que precisamos para viver e, nesse sentido, também pode ser um ato de cura, se tivermos consciência do que comemos, de quanto comemos e do por que comemos.

No livro O Caminho da prática” a autora cita T. Upanishad  que diz:
“A essência de todas as coisas aqui é a Terra.
A essência da Terra é a água.
A essência da água são as plantas.
A essência das plantas é uma pessoa.”

Diz autora: “Vamos levar este texto adiante e perguntar a nós mesmos: o que é a essência de uma pessoa? Eu acho que é aquela natureza fundamental que pertence exclusivamente a nós, e que nos conecta com o universo. Estamos todos em uma busca de consciência, que é encontrada quando se cultiva a atenção – um conhecimento interno que depende totalmente de uma relação harmoniosa com a natureza. A prática alimentar restaura nossa memória cognitiva e nossa capacidade de nos curarmos das doenças físicas e das feridas emocionais. Abra seu coração para a sabedoria da Mãe Natureza, banqueteie-se em sua mesa, e você nunca passará fome.”

Hoje fiz um Bolo Indiano e deixo aqui a receita para brincarmos em nossas cozinhas.

Bolo Indiano
½ kg açúcar mascavo
1 xíc. (chá) água
1 xic. (chá) leite
½  xíc. (chá) margarina
½ colher (sopa) canela em pó
½ colher (chá) noz moscada
½ colher (chá gengibre em pó
Pitada de sal
1 colher (sopa) fermento
2 colheres (sopa) farinha de linhaça
Farinha de trigo branca
1 prato fundo de nozes, maça, damasco, uva passas, linhaça, ameixa e castanhas
Coloque o açúcar mascavo numa panela, adicione água e leite e leve ao fogo até ferver. Desligue o fogo e passe a mistura para outro recipiente (peneirando) e adicione a margarina. Adicione as especiarias, farinho de linhaça e trigo para dar consistência. Misture bem e coloque o fermento. Finalize acrescentando as frutas secas e leve ao forma (45min).

10 de fevereiro de 2012

Jardim Botânico

“Sensibilizar pessoas para a importância da conservação das plantas e para o uso parcimonioso dos recursos ambientais”.
    Essa é a missão do Jardim Botânico de Nova Odessa.
 
 
Uma grande surpresa para mim. Ao entrar nesse jardim, meu coração se abriu a essa paisagem deslumbrante, cheia de canteiros de flores, ervas, árvores, vitórias-régias, tudo identificado com o nome científico e sua origem.

Gostosa manhã de domingo, quando meus olhos se encheram de uma beleza que há muito estavam precisando.


                                                                                                                                                            
                                                                               
                                                                                 
                                                                                
                                                                                 
                                                                                  
                                                                               

8 de fevereiro de 2012

Inutilidades


Para mim parece que o ano está começando agora. E nada melhor do que fazer aquelas limpezas de gavetas. Só que desta vez estou fazendo a limpeza das gavetas internas.

Depois de ter vivido esse período de 93 dias de coma de meu pai e sua morte serena na semana passada, fico aqui sentada no terraço do meu apartamento pensando em quantas inutilidades nós nos apropriamos. Como enchemos nossas gavetas internas com coisas que não nos servem para nada. Quer coisa mais inútil do que a mágoa? Sentir mágoa ou ressentimento não serve pra nada e nem pra ninguém. Julgar o outro e a si mesmo, que serventia tem isso? Fazer fofoca das pessoas que estão à nossa volta traz algum benefício? A culpa é outra coisa nas listas das inutilidades. E a lista pode ser grande.

Ao me deparar com esse evento tão forte neste momento de minha vida, entrei num mundo que desconhecia, um mundo cheio de hospitais, remédios, médicos, enfermeiras e pacientes em condições diferentes e ao mesmo tempo iguais. Mas também, neste mundo tão triste, tive contato com verdadeiros anjos no papel de enfermeiros, sem contar todas as pessoas que fui encontrando nos corredores do hospital e que também vivenciavam experiências profundas e que ainda eram capazes de aquecer meu coração com uma palavra, com uma história. A profundidade destes gestos nos faz expandir e vivenciar então o que é realmente importante e nos faz lembrar por que estamos aqui nessa existência.  E, portanto, tudo aquilo que me faz esquecer isso é pura inutilidade.

Quando deparamos com a vida e a morte numa linha divisória tão tênue, percebemos que a vida é muito mais do que todas essas inutilidades. Desapegar delas é o nosso grande trabalho para que possamos nos expandir para o que é realmente real, que é a consciência espiritual que faz com que a gente se perceba não como se fôssemos separados de tudo. A vida está sempre em transformação. Tudo é impermanente. Assim, por sermos parte disso tudo, também estamos em transformação. Se não nos desfizermos dessas inutilidades, as nossas gavetas ficarão abarrotadas de coisas que não precisamos mais e aí, não abrimos espaço para coisas novas. E tudo que não muda fica estagnado. Um ensinamento do Yoga é que o mundo com suas riquezas e pobrezas, alegrias e tristezas, bondades e maldades, se for visto realmente como ele é, não mais irá nos perturbar, pois tudo é transitório e passageiro.

E o desencarne de meu pai me fez vivenciar isso com muita profundidade. Já falei dele algumas vezes aqui nos posts: 90 anos - 05/03/2011, João - 08/09/2011, Meu pai - 07/08/2010. Ele viveu uma vida cheia de integridade, de honestidade, de dignidade, de respeito ao próximo e sempre estava de bom humor. E essa lembrança é o que traz paz para mim e minha família. Qualquer outra coisa que nos tire essa paz é inutilidade.

Registro aqui meu profundo agradecimento à vida por me ter dado oportunidade de ter uma pessoa como essa ao meu lado no papel de meu pai. E essa experiência me deixou a certeza de que estamos unidos pela nossa eternidade.

30 de janeiro de 2012

Presente

"Bom dia" é o que falamos quase que automaticamente quando encontramos as pessoas. Esse video nos leva a refletir sobre o que é um "bom dia", que presentes recebemos durante o dia, qual a nossa atenção e gratidão para tudo que nos acontece.

Pode ser uma boa dica para esse início de ano tanto ao fazermos promessas, quanto ao colocarmos metas para que sejam cumpridas até o final do ano. Talvez essa meta possa ir se concretizando todos os dias, todas as horas, todos os minutos, em todas nossas ações. 

Ficar atento a todas as coisas que vão passando por nós, para nós e dentro de nós é um modo para se chegar a qualquer meta que estabelecermos.

24 de janeiro de 2012

PERMANÊNCIA

Quando penso em “permanência”, num primeiro momento me vem a ideia de algo constante, que não muda, que permanece do mesmo modo por um tempo maior.

Outro dia, na prática de Yoga, o professor nos conduziu a uma postura que não tenho tanta dificuldade em fazer, mas, nesse dia, tive a sensação de que o professor não ia nunca mais passar para outra posição, parecia que estava ali por 15 minutos, o que não era verdade. Sentia meus músculos arderem. Tentava respirar e focar nessa sensação, mas minha mente saltava pensando, “tá demorando muito, talvez tenha que desmontar a posição antes do comando do professor”. Não conseguia relaxar na posição e não entendia o motivo, pois tinha feito esta postura antes com mais facilidade. Uma certa irritabilidade apareceu mesmo que eu fizesse respirações. E ficou aí esse conteúdo para eu me pesquisar, observar e aprender.

Claro que na minha auto-observação juntei essa experiência ao que estou vivendo no momento: meu pai em coma há quase três meses no hospital. A irritabilidade no exercício da permanência estava então ligada à minha necessidade de vivenciar essa permanência dolorosa da minha vida sem que nada pudesse fazer para mudá-la.

Permanecer numa situação em que você nada pode fazer pode te levar para um único lugar: para dentro de você mesma. E de lá podem surgir muitos conteúdos que você tinha certeza que já estavam assimilados, mas restavam alguns resquícios esperando o momento de serem integrados. Mas é também, lá dentro de você, que estão as ferramentas para elaborar esses novos (ou velhos)conteúdos. É lá que temos a possibilidade de ressignificar nossas crenças. Confesso que nesse período me desfiz de algumas crenças vazias, validei outras e adquiri novas. A flexibilidade interna precisou ser acionada, não sem alguma dor.

Ficar na permanência aqui pra mim está simbolizando reflexão, observação de meus sentimentos, paciência, não julgamento de mim mesma e de pessoas à minha volta, perdoar a mim mesma e me equilibrar nessa postura tão diferente que estou. Respirar é a chave. Meditar é chave. “Entregar, confiar, aceitar e agradecer” é a chave. O trabalho é profundo e exige uma verdade e uma concentração interna.

Uma das condições para se fazer uma postura no Yoga é a permanência que nos coloca física e mentalmente na disposição para que a postura aconteça. Os músculos precisam estar passivos. Claro que nessas posturas nossos músculos são colocados numa situação diferente das situações do nosso dia a dia, onde eles são encurtados.

No Yoga eles se esticam, relaxam, abrindo mais espaços, determinando nosso grau de flexibilidade. Quando estamos perto de seus limites, eles se contraem como uma forma de se proteger e nesse momento podemos permitir que eles se relaxem se pusermos nossa intenção nisso.

A cada expiração, podemos alongar um pouco mais. Assim podemos ir um pouco mais além sem violência e sem nos machucarmos.

Assim também quero ir um pouco mais além internamente, para abrir mais espaços dentro de mim e permanecer nessa contínua impermanência da vida.

14 de janeiro de 2012

Aniversário

19 de janeiro sempre foi um dia importante para mim. É quando celebro o dia que respirei pela primeira vez nessa existência, meu primeiro ato, minha primeira marca nesta história que agora chega aos 55 anos.

E a sensação é de que estou começando a segunda parte de minha vida, não como um declínio, mas como uma completude. O que vou fazer nessa outra fase? Onde vou me expressar? Que escolhas vou tomar para viver todos os eventos que vão aparecer? Como vou escolher viver os limites? São várias perguntas que surgem, como as que apareceram lá na adolescência, com a diferença de não ter mais ansiedade, de ter adquirido uma bagagem que me supre em todas as situações e, por isso, tenho agora uma sensação de liberdade extremamente agradável. Ufa! Como diz o professor Hermógenes, “sem as besteiras da juventude”.

Então hoje celebro esse dia perdoando... a mim mesma e as minhas experiências passadas, presentes e futuras.

Celebro desejando que toda minha ignorância seja retirada à medida que eu aprenda a acessar a verdade que já está em mim.

Celebro desejando que eu aceite as pessoas com suas diferenças olhando para o melhor delas mesmas.

Celebro a liberdade que tenho de fazer escolhas.

Celebro, aceito e agradeço todas as experiências que tive, tenho e terei entendendo que sou uma observadora de todas elas.

Celebro agradecendo aos meus pais que me deram esse corpo e todas as possibilidades para eu ser uma pessoa melhor.

Compartilho com vocês que carinhosamente me acompanham nesse blog. (20 min)

25 de dezembro de 2011

FELIZ 2012

Que todos os seres sejam felizes

 esse é o meu mais profundo desejo.




E o meu mais profundo sentimento é o de agradecimento à vida que me proporcionou tantas experiências diferentes esse ano, como por exemplo o acompanhamento de meu pai no hospital há quase 2 meses, onde pude ter contato com tantos novos sentimentos e aprendizados, tantas pessoas que vivem mundos e histórias tão diferentes da minha e que por algum motivo a vida me colocou em contato com elas. E o carinho que recebi de todos os meus alunos, meus amigos e de pessoas que nem conhecia, e do meu companheiro tão atencioso, o Edmilson, isso me tornou uma pessoa melhor, me despertando para um novo padrão de consciência e de amor. 

Que o video abaixo possa nos inspirar para que possamos respirar e relaxar nesse movimento.
                                                                  Namastê

17 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL !

Adoro o mês de dezembro. A temperatura é agradável. A chuva chove limpando o ar e o brilho emerge nas folhas verdes das árvores e os pássaros cantam e dançam celebrando mais um Natal.

E para celebrar esse Natal, desejamos tantas coisas. E eu desejo a cada um de vocês que me seguiram pacientemente no blog com tanto carinho que acessem o melhor de vocês mesmos, que vocês queiram ir um pouco mais além de onde estão, que busquem seus potenciais, que sejam curiosos e queiram aprender ainda mais, que não esqueçam de colocar entusiasmo em todas as áreas de suas vidas (profissional, familiar, intelectual, financeira, física, emocional e espiritual). Que independente dos rituais sociais que fizerem nesse Natal, possam despertar em seus corações o amor que inunda nossas células e que se exala para o mundo.

Deixo a seguir um poema de Márcio Assunção, que já coloquei neste blog, mas que tanto bem me faz ao ler novamente.

Hoje quero cantar para a Vida... A música da gratidão,
sabendo que tenho muito mais para agradecer do que para pedir,
por tudo que veio antes de mim, por tudo que virá depois de mim.
gratidão pelos que ajudaram, ajudam ou ajudarão,
pois essas pessoas me ensinam a cada dia que estou na vida para servir.
Gratidão por todos os que se apresentam como pedras no caminho,
pois me lembram que algumas vezes preciso ser podado para crescer forte.

Hoje quero cantar para a Vida... A música da devoção,
sabendo que tenho muito mais a oferecer do que para pedir,
para a fé que está no coração de cada Ser,
para Deus que está em todas as manifestações de verdadeira fé.
Quero fazer um altar dentro de mim
E reverenciar meus pais, meus antepassados e meus mestres,
Para que eu possa seguir em frente com humildade e honra.

Hoje quero cantar para a Vida... A música da meditação,
Sabendo que tenho muito mais que refletir do que pedir.

Quero cantar uma canção sem som, sem métrica, sem palavras.
Quero cantar o silêncio interior, Para escutar a voz da Consciência
que abaixa o volume do ego e aumenta o volume do Ser.

Hoje quero cantar para a vida... A música do coração,
Sabendo que tenho muito mais a cumprir do que para pedir.
Quero lembrar de minha primeira inspiração nesta existência,
Para não esquecer o que estou fazendo aqui.
Quero na última expiração, Ter a certeza do dever cumprido,
do dharma mantido E do caminho seguido.

Hoje quero cantar para o mundo...
E que outras pessoas ao ouvirem essa canção, Possam cantar juntas comigo
A música da transformação. 

20 de novembro de 2011

Roda da Vida

Nessas últimas semanas tenho experimentado intensos movimentos internos e deparado com sentimentos novos, constatando minha própria complexibilidade e subjetividade e refazendo ou validando minhas propostas existenciais.  Utilizei todos os recursos internos que venho construindo desde que nasci, os quais são meu suporte, meu norte. Na verdade, esses recursos estão a todo momento dentro de nós, o que fazemos é deixá-los conscientes e disponíveis. Como num mosaico, cada experiência que temos no nosso dia-a-dia nos desperta e nossos recursos internos vão se desenvolvendo e nos desenvolvendo. 

Mas, afinal, o que são esses recursos internos, como fazer para despertá-los, para podermos lidar com os eventos da vida de forma mais construtiva para nós mesmos?

Há várias esferas que compõem nossa existência. Há um sistema de auto avaliação que se chama Roda da Vida que é bastante utilizado, principalmente no trabalho de Coaching. Nesse sistema, há oito divisões e cada uma delas representa uma esfera de nossa vida que é fundamental para conquistarmos o equilíbrio pessoal. A ideia é que façamos reflexões sobre o quanto colocamos de atenção em cada parte de nossa vida. São elas: lazer, intelecto, saúde, amor, vida financeira, amigos e família, trabalho e carreira e espiritualidade. A ideia então é perceber o grau de satisfação em cada área e traçar planos para promover mudanças.

Para mim, uso a palavra espiritualidade para designar o conjunto dos recursos internos que construímos e vejo essa área muito importante para que consigamos desenvolver todas as outras, sem a qual seria muito difícil atingir uma satisfação duradoura. Espiritualidade não tem nada a ver com a religião que escolhemos ter ou não, não tem a ver com códigos feitos de fora para dentro e nem com padrões alienantes que construímos. Tem a ver com a paz interior, com a coerência de valores, com a força interna que temos para suportar as dificuldades sem se desequilibrar.

Na minha vida particular, muitas coisas me ajudaram a desenvolver essa esfera. Todas as religiões que estudei, todos os cursos que fiz, todos os meus questionamentos, todos os amigos que tive, a estrutura de minha família, meus professores das escolas onde estudei, todos os relacionamentos que tive, todo amor que senti, toda desilusão, toda frustração, toda alegria que tive, toda dor que doeu, tudo que conquistei com meu trabalho, tudo aquilo que não consegui ter, todas as viagens que fiz, todas as que não fiz, todo vazio que senti e que impulsionaram a buscar mais e mais o sentido de minha existência, o Yoga, a respiração, a bronquite quando era criança, todas pessoas chaves que conheci e que me inspiraram como Chico Xavier, Professor Hermógenes, Sara Marriot, meu pai e também aquelas pessoas que “se apresentam como pedras no caminho, pois me lembram que algumas vezes preciso ser podado para crescer forte.” (Márcio Assunção).

A lista aqui poderia ser enorme, pois não há uma só experiência que não tenha sido uma contribuição para que eu acordasse para meus recursos internos.

Sem isso como poderia vivenciar com serenidade o meu pai aos 90 anos em coma na UTI? Onde eu buscaria as respostas, que nessa hora são tantas, no meio de uma dor profunda que nunca tinha experimentado?  Não, não é sofrimento, eu optei por viver essa experiência consciente de minha dor, mas serena, dando oportunidade para que mais aprendizado chegue até mim, sem julgamento, sem ansiedade, sem dúvidas de que todos os recursos que já tenho dentro de mim me apoiam nesse momento. O carinho de todas as pessoas também tem sido um bálsamo. Com certeza não sou mais a mesma Zezé de alguns dias atrás. Profundas transformações se organizam e se instalam em minhas células.

Somos muito mais do que esse corpo físico, somos esse movimento de expandir eternamente.  O universo está presente em todos esses movimentos, em todas as situações e, portanto, tudo está certo. Tudo está perfeitamente certo.

"A força que guia as estrelas
também guia você"
                                       
Sri Sri Anandamurti

31 de outubro de 2011

Cachorro

Na minha história de "paz" com os cachorros (já escrevi aqui sobre o meu progresso com o medo de cachorros - 12/12/2011 - Hábito), coloco aqui essa história sensível e real de Reinaldo Azevedo chamada "Um Vira-lata". Gostaria de saber escrever como ele.

"Um dia ele apareceu na vilinha, não se sabe de onde. Já chegou adulto, meio labrador, meio lata, com o rabo cortado. Alguns o chamaram, então, “Cotó”. Outros o tinham por “Martim”, jamais consegui saber em razão de que marca. Estava por ali, entre as casas, havia bem uns 12 anos. Os “cachorristas”, dadas algumas características, lhe atribuíam entre 15 e 18 de vida. Contrariava a máxima de que cachorro de muitos donos morre de fome. Ele não! Estava sempre bonito, garboso, saudável.
Livre, sua simpatia era objeto de disputa. Cotó era personagem das nossas férias, dos nossos fins de semana, de muitos dos nossos momentos de alegria. No sábado, saiu para não voltar. Não dava mais pra ele. Os rins tinham parado de funcionar. Já não conseguia mais se alimentar. Só lhe restava a dor. Dor silenciosa, respiração ofegante, cansaço extremo. Foi levado ao veterinário. Um primeiro remédio o fez dormir, e outro pôs o ponto final.
Os dias podiam ser instáveis; o céu, temperamental; o sol, incerto; a temperatura, variável. Mas Cotó restituía todas as nossas esperanças de dias melhores. Era o portador da memória daquele lugar. Mais do que qualquer um de nós, sabia que um vento podia enegrecer o céu ou, então, abri-lo num azul largo e ancestral.
É provável que voltasse sempre em busca de comida — não aceitava nada que não fosse carne ou derivado, o luxento! —, e a gente confundisse aquilo com afeto. Mas quem se importa? Quem é tão vaidoso a ponto de inquirir os reais sentimentos de um cachorro?
Às vezes ele interrompia a minha leitura ou outra coisa qualquer que estivesse fazendo. Postava-se à minha frente. Encarávamo-nos, então, com camaradagem. “E aí, meu? O que é que manda?” Ele se aboletava por ali, descansava o focinho entre as patas, fechava os olhos devagar e parecia me dizer: “Isso vai se repetir para sempre. A vida pode ser assim, mansa…” E, por alguns segundos, minutos talvez, eu conseguia não pensar em nada, não querer nada, não me importar com nada. Dois camaradas satisfeitos, silenciosos, ocos de anseios, como a paisagem, como a seqüência dos dias, como o marulho mais ao fundo.
Cotó tinha a generosidade das coisas certas. Enquanto estava por ali, era como se nunca tivéssemos sido mais jovens, nunca tivéssemos sido mais saudáveis, nunca tivéssemos sido mais ágeis, nunca tivéssemos sido mais otimistas, nunca tivéssemos sido mais viçosos. Naquela pequena vila, ele nos dava a ilusão da eternidade e alimentava as nossas esperanças.
Morreu Cotó, e o tempo nos invadiu. Terei de aprender a amar outra narrativa na mesma paisagem, da qual ele não é personagem. Eu devo ter imaginado — acho que sim, não estou bem certo — que me viriam os netos e que ele continuaria por ali a atestar que nem tudo nos foge pelos vãos dos dedos, aos poucos, sem nem mesmo um suspiro audível.
Isso não é política, como vêem. É que Cotó tomou seu rumo. Lá se foi ele, sem consultar ninguém, como sempre, dono do seu nariz."

18 de outubro de 2011

M a r

A vida no nosso planeta
 se apresenta de tantas

formas, 
cores,
movimentos 
interações...


15 de outubro de 2011

Quebra-cabeça

         Catedral de Porto em Portugal
Essa semana, coincidentemente, reencontrei muitas pessoas que fizeram parte de várias fases da minha vida. A vida é mesmo um quebra-cabeça. Quando a gente vê apenas um pedaço desse quebra-cabeça, não entendemos nada, parece uma coisa sem sentido, mas quando um pedaço vai se juntando com outro, parece fazer todo sentido e aí a gente vai entendendo porque vivemos tais situações. Aí não existem mais problemas, existem apenas eventos que só viram problemas por causa de nossas crenças limitantes. No final tudo é bom, porque tudo contribui para nosso crescimento interno. A dor é parte natural da jornada humana. Todas as emoções são partes importantes do caminho. Depois esse complexo quebra-cabeça se junta a outros quebra- cabeças e vamos formando um grande desenho cósmico.

No livro Caminho da Prática a autora diz que nenhum de nós existe como ser independente, que estamos todos ligados ao universo por meio de nossa ancestralidade e nossa linhagem ancestral não se limita apenas àqueles com quem partilhamos a mesma herança genética, mas também os professores, mentores e amigos mais velhos que inspiraram e moldaram nossas vidas também estão incluídos.” De fato, somos o que somos hoje por causa de tudo que veio antes de nós. E por isso precisamos estar em paz com o passado.

Às vezes carregamos dores e conflitos provenientes da família imediata. "No seu passado existem ainda muitas lacunas... contas não saldadas, débitos interiores jamais pagos, senso de culpa, vitimismo e, sobretudo, cantos escuros em que predominam ferrugem e pó. Existe um lugar onde pensamentos, sensações, emoções, ações e eventos são registrados para sempre e, mesmo depois de anos, podemos reencontrá-los como objetos sem uso, guardados no sótão, aparentemente inativos. Perdoar-se por dentro não é um exame de consciência de um santo obtuso, mas o verdadeiro fazer de um homem de ação, o resultado de um longo processo de auto-observação. Significa lavar e curar as feridas ainda abertas. Perdoar-se dentro tem o poder de transformar o passado com toda a sua carga. O passado de uma pessoa comum que ainda não deu nem os primeiros passos em direção à unidade do ser é cheio de anzóis que o agarram à mínima tentativa de ali entrar e fazer mudanças...". (A escola dos deuses - Stefano Elio D'Anna).

Enquanto não enfrentarmos estas lembranças, não poderemos embarcar em nosso verdadeiro caminho. Tomarmos contato com essas dores, entendê-las e liberá-las de seu corpo emocional nos trará paz.

Há alguns anos quis viajar para Portugal, mais especificamente para a cidade do Porto, de onde meus bisavós saíram para o Brasil. Existe uma história comum que se repete desde 1700 (até onde consegui chegar) em minha família que está ligada com alcoolismo e abandono e que perpetua até nas gerações atuais, gerando muita dor. “...até entendermos e aceitarmos o passado e as formas como ele continua a nos dominar, permaneceremos espiritualmente sem paz e sem contato com o caminho da consciência.” (Do livro O Caminho da Prática).

Na cidade do Porto, embora não tenha vínculo com nenhuma religião, entrei na catedral e fiz um trabalho de perdão. Comecei perdoando e pedindo perdão por todas as histórias de abandono até os dias de hoje em minha família. Isso me fez sentir livre. Livre das histórias que carregamos por gerações fixadas em nossas células... 

Também a dor emocional pode ser genética. “Cada célula, cada átomo e lembrança de nosso ser foi divinamente comandado para se corrigir e se organizar cada vez que sair de sincronia com os ritmos cósmicos, ou seja, seu psiquismo vai trabalhar com você para restabelecer o equilíbrio espiritual." (Do livro O Caminho da Prática).

E então nesta semana, ao encontrar com tantas pessoas que fizeram parte de meu passado, senti uma oportunidade de aparar arestas, desvincular-me de bloqueios sem sentidos, pedir perdão e de me desfazer de histórias e situações que eu não precisava mais. Libertar-se de nossas próprias amarras emocionais é nos apropriamos de nossa própria vida.

14 de outubro de 2011

Desafios

Coisas da vida, coisas do amor,
coisas da caridade, coisas do entendimento.
Muito bonito esse depoimento de alguém
que passa por um evento desafiador.
A vida é aquilo que queremos ver.