Dentro de mim existe um lugar onde vivo inteiramente só.
e é lá que se renovam as nascentes que nunca secam.
P.Buch

Quinta-feira, Maio 24, 2012

Paz Mental

 
“Quando a dor de não estar vivendo
for maior que o medo da mudança,
a pessoa muda”
 S. Freud.

Hoje podemos ter muita ajuda profissional para nos ajudar nas mudanças. Mas para que mudar? Procuramos essa ajuda quando percebemos que nossas crenças, nossa maneira de ver a vida, nossas atitudes já não funcionam mais. Em determinado momento pensamos que o mundo precisa mudar, que as pessoas precisam mudar. Até tentamos mudá-los para termos um pouco de paz mental. Mas mudar o outro, mudar o mundo é coisa que não conseguimos.

Usar do mesmo comportamento que sempre tivemos também não ajuda. Qualquer coisa que eu faça não é garantia de que o outro mude. Como posso ser feliz se o outro não muda? - nos perguntamos muitas vezes.

Descobrir que o que tenho feito e pensado não ajuda muito em determinada situação já é um grande passo, porque não é fácil admitir que tudo o que aprendi sobre o que seriam as verdades do mundo não funciona mais e eu tenho que me abrir para ver outras possibilidades.

Swami Saraswati no seu livro Valor dos Valores” diz: “Quando cobro do outro uma atitude, provoco muitas agitações na minha mente. A pessoa sobre quem faço tal cobrança pode não responder ou pode responder com hostilidade ou me fazendo cobrança por um respeito ainda maior.
O resultado são mágoas mútuas, atritos entre nós, mentes agitadas... A mágoa só é possível quando existe um ego inflamado... Um ego esvaziado e magoado tende a gastar muito tempo planejando como ensinar uma lição a quem o magoou... Se eu estou obcecado com a quantidade de respeito que recebo do outro, posso gastar muito tempo tentando analisar suas palavras e gestos...”

“Quando alguém reage a mim de maneira diferente da que eu gostaria, eu apenas observo minhas próprias reações, sem nenhuma reação extra. Da posição de observador, vejo a falta de sentido das minhas expectativas em todo seu absurdo.” Percebemos que queremos que o outro mude porque nosso real desejo é a esperança de que essa mudança me faça sentir mais confortável comigo mesmo.”

O trabalho de mudança, então, em mim é grande e ele começa quando a dor que sinto é insuportável e eu estou cansada de sentir o que estou sentindo. Mudo pra sobreviver, mudo porque minha consciência compreende que eu tenho um mundo de possibilidades dentro de mim. Aceitar o outro como ele é, é o primeiro passo para termos paz mental.

Quando eu reajo ao mundo, minha mente não tem paz, a experiência não me ensinará nada e as emoções dolorosas invadirão meu ser. A reação a um evento é uma resposta automática que nasce dos nossos hábitos mentais de gostar e não gostar.

Podemos então agir ao evento, ao invés de reagir a ele. Agir significa ver as coisas como elas são, como simples eventos e não como problemas e sofrimentos. Aceitar os eventos como eles são nos dá a possibilidade de aprender com eles. Quando a palavra aceitação é dita sempre nos causa alguma inquietação porque usamos nossos hábitos mentais para embutir nela o paradigma da submissão, de passar por bobo, de não ter atitude etc. No caso, a aceitação aqui é não criar resistência ao fato dentro de nós, sem considerarmos nossa sabedoria e nossa postura mental.

Reagir é quando despejamos nossos medos, nossa raiva reprimida, nossa não aceitação do outro ser quem é ou de um fato ser como é. Queremos que o mundo e as pessoas façam aquilo que eu considero correto e bom para mim e se isso não acontece, sinto dor porque evidencia tudo aquilo que preciso trabalhar dentro de mim. O mundo não existe para satisfazer nossas vontades.

Reação é diferente de ação. Na ação, eu vejo o fato, eu analiso o fato, percebo como ele processa dentro de mim. Tiro a erva daninha de dentro de mim e aí eu sei o que devo fazer, em que momento devo fazer e para que fazer. Sem isso, é pura reação que atrai uma outra reação mecânica todas apoiadas pelas nossas emoções não trabalhadas. A reação eu não escolho, é mecânica. A ação é uma escolha baseada no meu autoestudo, sabendo que não temos controle no resultado dessa ação.

Uma mente livre de reações é uma mente quieta e receptiva, objetiva e serena e está pronta para descobrir o fato de que não existe separação entre o indivíduo e a criação.

Só a partir dessa construção de nossa paz mental podemos começar a falar de paz no mundo.

Quarta-feira, Maio 16, 2012

Nossos Vazios

Minha aluna e amiga Carol me mandou esse video de 18 minutos e eu gostei tanto que achei que deveria colocar aqui no “Coisas da Vida”.

       .....para fazer o caminho de volta para nossa essência
precisamos de coragem para olhar para o nosso vazio...

E é por aí que o palestrante Marcelo fala de suas descobertas de como preencher nossos vazios.
 
Marcelo L. Cardoso é vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional e Sustentabilidade da Natura, sendo responsável pela implementação do Sistema de Gestão Natura que compreende as áreas de Estratégia, Gestão e Pessoal. Antes de ingressar na Natura, em maio de 2008, foi diretor executivo da DBM do Brasil e presidente regional para a América Latina. Atuou também na GP Investimentos, presidiu o Hopi Hari e foi diretor financeiro da Playcenter S.A. e da Método Engenharia, entre outras empresas. Marcelo é graduado em Administração de Empresas, com extensão na Kellogg-Northwestern, de Chicago. Participou de programas executivos na American University, Washington DC (1993) e no Insead (2001). Além disso, é Coach e Facilitador, Presidente e Fundador do Instituto Integral Brasil e membro do Conselho Diretivo do Instituto Ethos.

Segunda-feira, Maio 07, 2012

Mães


Irene
E o Dia das Mães sempre se confunde com o dia do aniversário da minha mãe, que faz no dia 12/05. Já celebramos o aniversário neste último domingo, pois fazer 90 anos não é pra qualquer um não.

No seu caminhar lento me lembro do quanto ela caminhou para nos proteger, nos alimentar, nos garantir estrutura emocional. Nós, quero dizer, filhos, parentes, vizinhos, amigos, o pedinte, o entregador de gás, o lixeiro, qualquer pessoa que batesse à sua porta, ela ouvia a história, e dava um jeito de dar alguma coisa. Agora, naquele corpo mais frágil, percebo o ensinamento de que não somos só o nosso corpo físico. Somos muito mais que isso. Somos essa energia que almeja sempre ir para cima, como toda a vegetação que vai em direção ao sol. Essa é a nossa essência, essa força que sempre caminha em direção à Luz, independente da história que vivemos aqui, da história que precisamos viver aqui.

Minha mãe colocou toda sua energia amorosa no arrumar e limpar a casa, no cozinhar com tanta tranquilidade, quase uma meditação, em frente ao velho fogão Dako, da minha idade, que ela não troca por nada nesse mundo.

Quando eu era pequena, me pegava admirada com uma tacinha de cural que eu comia. É que não entendia muito bem como é que minha mãe fazia aquela mágica. Ela capinava todo o quintal de casa. Fazia buraquinhos na terra e eu jogava uns grãozinhos de milho lá nos buraquinhos. Depois fechávamos os buraquinhos e toda a tarde a gente regava aquela terra com regador. De repente começavam a brotar dali umas plantinhas verdes e quando cresciam, minha mãe tirava uns cachos e desembrulhava-os e o milagre estava lá: milhares de milhos iguais aqueles que eu tinha colocado no buraquinho. Minha mãe transformava aquilo num líquido amarelo e colocava no fogo e mexia como se estivesse abençoando toda aquela magia. Antes de comer, eu ficava imaginando tudo aquilo e como minha mãe era poderosa. Aprendi com ela então que o milagre já existe, só precisamos arregaçar as mangas e fazer com que eles se manifestem.

Foi assim que minha mãe me passou valores universais: através de suas ações e dessa conexão com a natureza que ela mantinha. Celebrar seus noventa anos foi como reviver tudo que eu aprendi.

E agora o Dia das Mães chega e lá me pego pensando novamente em todas as mães. Nas mães das mães e nas mães das mães das mães.

No ano passado também escrevi mais ou menos sobre isso e repito aqui o que disse por achar de extrema importância o nosso respeito a essas mulheres, que nos deram à vida e os nossos maridos e os nossos amigos. Mulheres vindas de mulheres que preparam os alimentos que alimentam, que são guardiãs dos valores e da amorosidade. E se nossas mães, em especial, não fizeram isso, no mínimo, no mínimo nos deram a vida e isso é tudo que precisamos para ter uma gratidão eterna.

No Yoga há vários asanas (posturas) onde baixamos a cabeça simbolizando que eu reconheço a minha existência e a importância fundamental que minha mãe e meu pai têm nessa minha existência. Isso, temos que honrar! Honrar o que ficou atrás para eu poder seguir com a cabeça erguida e com humildade. Eu plantei o meu corpo. Meu corpo é perfeito e se torna mais perfeito ainda se eu honro o que fui. Só vou para frente quando honro o que vem antes de mim.

Deixo então aqui, mais uma vez, minha profunda gratidão e reconhecimento a todas as mulheres (Irene, Silvana, Francisca, Roza... e a Carminha, outra mulher que trouxe a essa vida o Edmilson que é meu companheiro de jornada, mães de mães que me possibilitaram estar aqui e agora com toda a vida e experiências vividas por todas elas presentes em mim. Portanto, somos todas ligadas como somos ligadas ao planeta, ao universo, ao mar, à floresta, à terra, ao fogo e ao ar e ao cural do quintal de minha mãe. Tudo isso vive dentro de mim.

Feliz Dias das Mães a todas as mulheres com ou sem filhos. Que nossos frutos representem a amorosidade para com todos os seres vivos. 

Minha mãe e suas irmãs

Sábado, Abril 28, 2012

Paz

Lindo filme. Se pudéssemos ter essa experiência no nosso primeiro contato com esse planeta, talvez nossa história pudesse ter outra qualidade. 

Segunda-feira, Abril 23, 2012

Valores Universais

Hoje em dia o que mais ouço e me pego falando é sobre quantas atividades temos num dia só. Parece que a gente não consegue parar nunca. É uma atividade atrás da outra. Ufa! Algumas vezes noto que, independente de quanto fazemos, chega o fim do dia e estamos exaustos, mas em outros estamos tranquilos. De onde concluo que, na verdade, não é o quanto temos para fazer, mas quanto nossa mente fica agitada.

Todos nós já experimentamos a sensação de que nossa mente não para de pensar e estamos sempre tentando achar soluções através delas, elaborando ações e respostas às pessoas que, de alguma forma, nos feriram ou nos desqualificaram, ou, ainda, nos desrespeitaram. Criamos diálogos em nossas mentes baseados em nossa dor e tentamos responder ao mundo mostrando essa dor através da raiva, do medo, da insegurança, mesmo que venham mascarados por sentimentos nobres como o de justiça. Não conseguimos trazer paz para a nossa mente.

Mas afinal qual a função de nossa mente? “A mente é o lugar onde o conhecimento acontece”, de acordo com o livro que estou lendo “O Valor dos Valores” (veja na lista de livros a direita do blog) e, se esse conhecimento não acontece, é porque existe um obstáculo. Se temos nossa mente cheia de afazeres que usamos para encontrar meios de driblar ou rejeitar nossas emoções, fica difícil o conhecimento chegar até nós. Precisamos abrir espaços em nossas mentes para que um novo referencial, um novo conhecimento chegue até ela. Portanto, a mente precisa se preparar. O livro diz que praticar exercícios respiratórios, exercícios físicos podem ser úteis para aquietar a mente, mas não preparam a mente para o autoconhecimento.

O que prepara a mente para o autoconhecimento são as práticas dos valores universais e esses valores são certas atitudes éticas universais. O livro diz que “um valor ético é um padrão ou norma de conduta originado na maneira pela qual eu desejo que os outros me vejam ou me tratem.” Esses valores não têm nada a ver com religião, embora eles alicercem muitas delas.

Tudo o que eu não quero que os outros me façam é um comportamento inadequado. Portanto eu tenho a mim mesma como referência para saber quais são esses valores universais. Por exemplo: não quero que o outro minta para mim, quero que me diga a verdade. Portanto esse é um valor para mim. Assim eu pratico não dizer mentira. E assim podemos então saber o que é um valor para cada um de nós.

Minha vida só pode me levar ao autoconhecimento se eu praticar os meus valores internos que são os valores universais não baseados em raça, religião, sexo, preconceitos etc.

Uma vez que sei quais são esses valores, eu uso esses valores. Se não uso, se por algum motivo me desvio desses valores, eu entro em conflito interno comigo mesmo e nesse momento a mente começa a se agitar porque crio uma semente de culpa que gera a insônia, o medo. Mesmo pequenas mentiras registram internamente esses conflitos.

O conflito então aparece quando não conseguimos viver de acordo com determinado valor e, assim, não posso estar confortável. Consequentemente nossa qualidade de vida sofre sempre que nos tornamos divididos. “A expressão da minha vida é exatamente a mesma da minha estrutura de valores bem assimilados. O que eu faço é só expressão do que é valioso para mim".

Se faço desse ato de não viver conforme esses valores universais uma rotina, começo a destruir dentro de mim a minha expressão no mundo. Vivo a vida rasa, o acordar, trabalhar, pagar as contas, dormir e acordar novamente. Quem quer viver a vida rasa, sem profundidade, sem se conhecer, sem saber o que eu quero e para onde estou indo e como faço para chegar lá?

Estou me deliciando com esse livro que cita, na sequência, 20 valores que são necessários para preparar a mente para o autoconhecimento. Mas esse vai ser tema para um outro post.

Abaixo 2 minutos e meio de belo poema de Professor Hermógenes.

Segunda-feira, Abril 02, 2012

Sustentação

Não adianta, a vida é cheia de eventos que às vezes julgamos agradáveis e às vezes desagradáveis. Desde crianças temos desafios para enfrentar e, se os pais permitirem sem nos superproteger, vamos aprendendo logo cedo como podemos lidar com eles. As crianças que têm tudo o que querem sem o mínimo de esforço para conseguir, desenvolvem uma baixa resistência à frustração, tornando-se rebeldes e adultos infantilizados, sem conseguir se adaptar em diversas áreas de suas vidas. Se somos impedidos de viver frustrações quando crianças teremos de aprender na vida enquanto crescemos. Resiliência é a palavra usada hoje para dizer o quanto temos de sustentação interna para lidar com os diferentes eventos da vida e com as emoções que delas surgem e para nos adaptarmos às mudanças externas, superarmos obstáculos.

Refletia sobre isso ao fazer a postura do Pilar do Yoga. Como é desafiante você ficar com suas pernas esticadas para cima formando um ângulo de 90 graus com o solo. Sentir tranquilidade na respiração enquanto você está numa posição diferente do dia a dia. Permanecer ali, enquanto tudo começar a esquentar. As pernas querem cair, mas você as alinha, e as mantém ativas e firmes através do abdome e da respiração.

Precisamos do Pilar porque precisamos de sustentação, que é a autoconfiança, disciplina e alinhamento. Precisamos de sustentação para segurar aquilo que é nosso. Ninguém vai viver a minha história, só eu posso fazer isso. E como dizia meu pai, “já que isso é meu e nada pode ser feito para modificar, vou viver de cabeça erguida até o fim, com coragem e cumprir minha missão, sem reclamar”. Essa aceitação do imponderável é também uma compreensão dessa sustentação interna do que já foi e do que virá em nossas vidas.

Às vezes a morte de um pai, de uma mãe pode nos dar a sensação de que perdemos essa sustentação, de que estamos no vazio. Mas é nesse vazio que posso enxergar o quanto de sustentação eu construí em mim. O que todos os eventos que vivi me tornaram? Em que paisagem eu escolho deitar meu olhar?

Se eu me permito viver a vida com todos os acontecimentos que me vêm, optando pelo aprender, pelo autoestudo, pela curiosidade e criatividade em seguir novos caminhos, faço disso um pilar interno que me sustenta e me alinha.

Se eu me sustento, deixo o outro, deixo a criança se sustentar também. Se não me sustento, me dependuro nas pessoas e, ao mesmo tempo em que sobrecarrego o outro, não descubro a beleza de ser inteira.

Sábado, Março 24, 2012

Saúde Integral

Hoje, sem desconsiderar toda a importância das descobertas feitas pelos cientistas, vivemos em um mundo recortado por áreas e disciplinas, separado por especialistas, numa abordagem cartesiana e que influenciou nossa visão de mundo, vendo-nos como centro do universo sem nenhuma correlação com o Todo. Sem essa consciência do Todo, não percebemos a relação entre as coisas e as nossas atitudes. A nossa busca real é ir além da dualidade e de tudo que limita e que fragmenta. A meta não se destina a reduzir o sofrimento a dimensões normais, mas transcender o sofrimento.
Entrar em contato com os sentimentos de alguém é de pouco valor, se tais sentimentos sombrios não são transformados, resgatando assim a possibilidade de criarmos com consciência a nossa ação no mundo, através das escolhas, não mais como vítimas, mas como agentes de transformação.


Uma amiga me enviou hoje uma entrevista com o Dr. Jorge Carvajal, médico cirurgião da Universidade de Andaluzia, Espanha, pioneiro da Medicina Bioenergética que coloco abaixo.

É interessante uma visão de alguém que está totalmente envolvido com a ciência ocidental e que nem por isso nega que somos constituídos de algo mais. 

“A alma não pode adoecer, porque é o que há de perfeito em ti, a alma evolui, aprende... Quando nossa personalidade resiste aos desígnios da alma, adoecemos.

70 por cento das enfermidades do ser humano vêm do campo da consciência emocional. As doenças muitas vezes procedem de emoções não processadas, não expressadas, reprimidas. O medo, que é a ausência de amor, é a grande enfermidade... Quando o temor se congela, afeta os rins, as glândulas suprarrenais, os ossos, a energia vital, e pode converter-se em pânico... Tens que cuidar de ti. Tens teus limites, não vás além. Tens que reconhecer quais são os teus limites e superá-los, pois, se não os reconheceres, vais destruir teu corpo.

A raiva é santa, é sagrada, é uma emoção positiva, porque te leva à auto-afirmação, à busca do teu  território, a defender o que é teu, o que é justo. Porém, quando a raiva se torna irritabilidade, agressividade, ressentimento, ódio, ela se volta contra ti e afeta o fígado, a digestão, o sistema imunológico.

A alegria é a mais bela das emoções, porque é a emoção da inocência, do coração e é a mais curativa de todas, porque não é contrária a nenhuma outra. Um pouquinho de tristeza com alegria escreve poemas. A alegria com medo leva-nos a contextualizar o medo e a não lhe darmos tanta importância.

A alegria suaviza todas as outras emoções, porque nos permite processá-las a partir da inocência. A alegria põe as outras emoções em contato com o coração e dá-lhes um sentido ascendente. Canaliza-as para que cheguem ao mundo da mente.

A tristeza é um sentimento que pode te levar à depressão quando te deixas envolver por ela e não a expressas, porém ela também pode te ajudar. A tristeza te leva a contatares contigo mesmo e a restaurares o controle interno. Todas as emoções negativas têm seu próprio aspecto positivo. Tornamo-las negativas quando as reprimimos.

...Quando se aceitam (as emoções negativas), elas fluem, e já não se estancam e podem se transmutar. Temos de as canalizar para que cheguem à cabeça a partir do coração. Realmente as emoções básica são o amor e o medo (que é ausência de amor), de modo que tudo que existe é amor, por excesso ou deficiência. Construtivo ou destrutivo. Porque também existe o amor que se aferra, o amor que superprotege, o amor tóxico, destrutivo.

Como prevenir a enfermidade?
Somos criadores, portanto creio que a melhor forma é criarmos saúde. E, se criarmos saúde, não teremos que prevenir nem combater a enfermidade, porque seremos saúde.


E se aparecer a doença?
Teremos, pois, de aceitá-la, porque somos humanos. Krishnamurti também adoeceu de um câncer de pâncreas e ele não era alguém que levasse uma vida desregrada. Muita gente espiritualmente muito valiosa já adoeceu. Devemos explicar isso para aqueles que creem que adoecer é fracassar.


O fracasso e o êxito são dois mestres e nada mais. E, quando tu és o aprendiz, tens que aceitar e incorporar a lição da enfermidade em tua vida... Cada vez mais as pessoas sofrem de ansiedade. A ansiedade é um sentimento de vazio, que às vezes se torna um oco no estômago, uma sensação de falta de ar. É um vazio existencial que surge quando buscamos fora em vez de buscarmos dentro. Surge quando buscamos nos acontecimentos externos, quando buscamos muleta, apoios externos, quando não temos a solidez da busca interior. Se não aceitarmos a solidão e não nos tornarmos nossa própria companhia, sentiremos esse vazio e tentaremos preenchê-lo com coisas e posses. Porém, como não pode ser preenchido de coisas, cada vez mais o vazio aumenta.

Então, o que podemos fazer para nos libertarmos dessa angústia?
Não podemos fazer passar a angústia comendo chocolate ou com mais calorias, ou buscando um príncipe fora. Só passa a angústia quando entras em teu interior, te aceitas como és e te reconcilias contigo mesmo. A angústia vem de que não somos o que queremos ser, muito menos o que somos, de modo que ficamos no "deveria ser", e não somos nem uma coisa nem outra. O stress é outro dos males de nossa época. O stress vem da competitividade, de que quero ser perfeito, quero ser melhor, quero ter uma aparência que não é minha, quero imitar. E realmente só podes competir quando decides ser um competidor de ti mesmo, ou seja, quando queres ser único, original, autêntico e não uma fotocópia de ninguém. O stress destrutivo prejudica o sistema imunológico. Porém, um bom stress é uma maravilha, porque te permite estar alerta e desperto nas crises e poder aproveitá-las como oportunidades para emergir a um novo nível de consciência.


O que nos recomendaria para nos sentirmos melhor com nós mesmos?
A solidão. Estar consigo mesmo todos os dias é maravilhoso. Passar 20 minutos consigo mesmo é o começo da meditação, é estender uma ponte para a verdadeira saúde, é aceder o altar interior, o ser interior. Minha recomendação é que a gente ponha o relógio para despertar 20 minutos antes, para não tomar o tempo de nossas ocupações. Se dedicares, não o tempo que te sobra, mas esses primeiros minutos da manhã, quando estás rejuvenescido e descansado, para meditar, essa pausa vai te recarregar, porque na pausa habita o potencial da alma.


O que é para você a felicidade?
É a essência da vida. É o próprio sentido da vida. Estamos aqui para sermos felizes, não para outra coisa. Porém, felicidade não é prazer, é integridade. Quando todos os sentidos se consagram ao ser, podemos ser felizes. Somos felizes quando cremos em nós mesmos, quando confiamos em nós, quando nos empenhamos transpessoalmente a um nível que transcende o pequeno eu ou o pequeno ego. Somos felizes quando temos um sentido que vai mais além da vida cotidiana, quando não adiamos a vida, quando não nos alienamos de nós mesmos, quando estamos em paz e a salvo com a vida e com nossa consciência. Viver o Presente.


Deixamos ir-se o passado e não hipotecamos a vida às expectativas do futuro quando nos ancoramos no ser e não no ter, ou a algo ou alguém fora. Eu digo que a felicidade tem a ver com a realização, e esta com a capacidade de habitarmos a realidade. E viver em realidade é sairmos do mundo da confusão. Temos três ilusões enormes que nos confundem:

Primeiro: cremos que somos um corpo e não uma alma, quando o corpo é o instrumento da vida e se acaba com a morte.

Segundo: cremos que o sentido da vida é o prazer, porém com mais prazer não há mais felicidade, senão mais dependência... Prazer e felicidade não são o mesmo. Há que se consagrar o prazer à vida e não a vida ao prazer.

Terceiro: ilusão é o poder; desejamos o poder infinito de viver no mundo.. E do que realmente necessitamos para viver? Será de amor, por acaso?

O amor, tão trazido e tão levado, e tão caluniado, é uma força renovadora. O amor é magnífico porque cria coesão. No amor tudo está vivo, como um rio que se renova a si mesmo. No amor a gente sempre pode renovar-se, porque ordena tudo. No amor não há usurpação, não há transferência, não há medo, não há ressentimento, porque quando tu te ordenas, porque vives o amor, cada coisa ocupa o seu lugar, e então se restaura a harmonia. Agora, pela perspectiva humana, nós o assimilamos com a fraqueza, porém o amor não é fraco. Enfraquece-nos quando entendemos que alguém a quem amamos não nos ama. Há uma grande confusão na nossa cultura. Cremos que sofremos por amor, porém não é por amor, é por paixão, que é uma variação do apego. O que habitualmente chamamos de amor é uma droga. Tal qual se depende da cocaína, da maconha ou da morfina, também se depende da paixão. É uma muleta para apoiar-se, em vez de levar alguém no meu coração para libertá-lo e libertar-me. O verdadeiro amor tem uma essência fundamental que é a liberdade, e sempre conduz à liberdade. Mas às vezes nos sentimos atados a um amor. Se o amor conduz à dependência é Eros. Eros é um fósforo, e quando o acendes ele se consome rapidamente em dois minutos e já te queima o dedo. Há amores que são assim, pura chispa. Embora essa chispa possa servir para acender a lenha do verdadeiro amor. Quando a lenha está acesa, produz fogo. Esse é o amor impessoal, que produz luz e calor.

Pode nos dar algum conselho para alcançarmos o amor verdadeiro?
Somente a verdade. Confia na verdade; não tens que ser como a princesa dos sonhos do outro, não tens que ser nem mais nem menos do que és. Tens um direito sagrado, que é o direito de errar; tens outro, que é o direito de perdoar, porque o erro é teu mestre. Ama-te, sê sincero contigo mesmo e leva-te em consideração. Se tu não te queres, não vais encontrar ninguém que possa te querer. Amor produz amor. Se te amas, vais encontrar amor. Se não, vazio. Porém nunca busques migalhas, isso é indigno de ti. A chave então é amar-se a si mesmo. E ao próximo como a ti mesmo. Se não te amas a ti, não amas a Deus, nem a teu filho, porque estás apenas te apegando, estás condicionando o outro. Aceita-te como és; não podemos transformar o que não aceitamos, e a vida é uma corrente permanente de transformações.
Prof. Dr. Maurício Paes Landim
Professor Adjunto de Cardiologia UFPI/UESPI
Mestre em Medicina
Doutor em Cardiologia

Domingo, Março 04, 2012

Atitude

Ontem saí do curso que estou fazendo com a professora de Vedanta, Glória Ariera, com muita coisa a pensar e a refletir, tamanha a capacidade de clareza que ela tem ao discorrer sobre e os ensinamentos dos vedas sobre a vida real.

Confesso que me surpreendi com a possibilidade de poder beber de uma fonte tão antiga ensinamentos que são tão presentes em nossa vida hoje.

Fiquei fazendo um paralelo com tudo que tenho aprendido.

Quando começamos a fazer um trabalho de Coaching, por exemplo, falamos em meta, falamos em competência, falamos sobre nossos valores e nossa missão. Pesquisamos nossas crenças e tentamos ser congruentes em todas as nossas facetas da vida. Ao entendermos como funcionamos, colocamos em prática essa nova maneira de pensar e observamos como isso vai acontecendo.

Se só entendermos como funcionamos e não colocarmos em prática não temos ganho algum, será um ato vazio. Se agimos sem ter a atitude da mudança também não há ganho algum, continuaremos fazendo a mesma coisa e teremos, portanto, as mesmas respostas da vida. Não adianta reclamar que a vida da gente não muda se eu não mudo minha atitude. Se tivermos a atitude e não manifestá-la em ato, também não há nada a ganhar. É inútil.

O significado das experiências que temos depende do entendimento que temos sobre nós mesmos, sobre o outro e sobre como eu me relaciono comigo e com o mundo. A mesma experiência pra mim pode ser dolorosa, carregada de sofrimento ou pode ser carregada de abertura, de expansão. Isso depende da nossa escolha.

Quando entramos nessa aventura do autoconhecimento, nos observamos e nos vemos, muitas vezes, repetindo os mesmos padrões. Tudo bem, esse é o início do processo. Precisamos de um tempo para, após o entendimento, nutrir o significado da ação.

Quando nos conhecemos melhor podemos também ter melhores escolhas. Claro que sempre temos como objetivo a satisfação, satisfazer nossos desejos, nossos anseios. Se tudo à nossa volta funciona como eu acho que deve funcionar, estão eu fico satisfeita. Mas nem sempre isso é possível. E se a minha satisfação destrói o outro, não podemos ir por esse caminho. E por quê? Porque sabemos o que é certo, porque temos a nós mesmos como padrão, ou seja, não faço ao outro o que eu não gostaria que fizesse comigo.

Maturidade emocional é quando não fazemos o que não é certo, é quando temos a capacidade de escolher não satisfazer nossos desejos em primeiro lugar, mas fazer o que é adequado. Do contrário ficaremos emocionalmente mimados, infantis. Muitas vezes enfrentamos situações onde há algo que devemos fazer, mas isso não bate com os meus valores mais internos. Há então um conflito. Cria-se uma divisão e a mente não se aprofunda, porque o contato com você mesmo é doloroso, porque neste contato você tem que lidar com a sua incoerência. Se você for congruente, a mente se tranquiliza e você fica em paz com seus valores.

O mundo não é só do jeito que a gente quer. Então como busco a satisfação? A minha felicidade não pode depender de eu organizar o mundo à minha visão, de mudar as pessoas e situações. Deve haver outra maneira de ser feliz. A única maneira eficaz é olhar o mundo por outra perspectiva. A solução que, até então, eu buscava fora, já não me serve mais. Ela precisa ser vasculhada dentro de mim mesma e isso exige um espaço na nossa mente para poder pensar diferente e esse espaço só vai existir se tivermos paz interna. Esse sim é o nosso grande e verdadeiro objetivo a ser alcançado. Para isso temos que trabalhar a auto-observação em todas as áreas de nossa vida.

Isso foi um pouco do que ouvi no curso e fiquei aqui pensando que nossa vida é algo valioso demais para ficarmos repetindo as mesmas coisas todos os dias, usando as mesmas técnicas de comportamento, as mesmas crenças limitantes que não nos fazem sair do lugar. Só posso saber disso se me auto-observo e se eu tenho a disponibilidade interna de mudar dentro de mim e ainda me colocar no mundo como uma pessoa mais refinada, mas íntegra, mais honesta, mais verdadeira.

Se, ao acabar meu dia, me olho e vejo que repeti ações inadequadas, que caí nas mesmas armadilhas emocionais, então eu tenho a escolha de mudar e tomar uma atitude que me transforme naquilo que realmente eu sou para contribuir com minha família, meus amigos, companheiros de trabalho, a humanidade e o universo. De outra maneira, seguiremos nossa vida sem alcançarmos a nossa meta maior.

Domingo, Fevereiro 26, 2012

Cozinhar

Às vezes eu me aventuro na cozinha e se não surgem grandes pratos e se não me fixo no resultado, confesso que é uma atividade de muito relaxamento. A expectativa do resultado gera ansiedade e nos faz ficar fora do presente, no momento da execução de todo processo. As cores me deliciam, bem como os perfumes, texturas de todos os ingredientes. Lembro da minha admiração e encantamento quando minha mãe pediu para eu cortar um mamão pela metade e percebi alí o desenho de uma estrela! Lembro de Maria Preta quando vejo as garrafinhascheias de água dentro das mixiricas e não me canso de ver aquele vermelho da beterraba e a cor da abóbora e a delicadeza das flores de brócolis. Como pode haver sabores tão diferentes em folhas verdes vindo do mesmo quintal generoso, onde minha mãe plantava e eu regava toda tarde? Ainda ouço o som do feijão na peneira de minha mãe, e o cheiro do cural que vinha do som do debulhar do milho. Eram sons que, por harmonizarem com nosso som interno, nos relaxavam.

A planta com toda sua variedade é o ancestral da humanidade mais antigo e nelas provavelmente estão contidas todas as memórias do universo.

Claro que, hoje, parte do processo de cozinhar já vem pronta, mas mesmo assim, brinco na cozinha com essas cores, som, texturas contidas no alimento que dão vida a cada uma de nossas células.

Somos ligados a todos os seres humanos através dessa alimentação que vem da mesma origem, com as mesmas substâncias.

Comer é um ato divino e alquímico. Trazemos para nossas células todo nutriente que precisamos para viver e, nesse sentido, também pode ser um ato de cura, se tivermos consciência do que comemos, de quanto comemos e do por que comemos.

No livro O Caminho da prática” a autora cita T. Upanishad  que diz:
“A essência de todas as coisas aqui é a Terra.
A essência da Terra é a água.
A essência da água são as plantas.
A essência das plantas é uma pessoa.”

Diz autora: “Vamos levar este texto adiante e perguntar a nós mesmos: o que é a essência de uma pessoa? Eu acho que é aquela natureza fundamental que pertence exclusivamente a nós, e que nos conecta com o universo. Estamos todos em uma busca de consciência, que é encontrada quando se cultiva a atenção – um conhecimento interno que depende totalmente de uma relação harmoniosa com a natureza. A prática alimentar restaura nossa memória cognitiva e nossa capacidade de nos curarmos das doenças físicas e das feridas emocionais. Abra seu coração para a sabedoria da Mãe Natureza, banqueteie-se em sua mesa, e você nunca passará fome.”

Hoje fiz um Bolo Indiano e deixo aqui a receita para brincarmos em nossas cozinhas.

Bolo Indiano
½ kg açúcar mascavo
1 xíc. (chá) água
1 xic. (chá) leite
½  xíc. (chá) margarina
½ colher (sopa) canela em pó
½ colher (chá) noz moscada
½ colher (chá gengibre em pó
Pitada de sal
1 colher (sopa) fermento
2 colheres (sopa) farinha de linhaça
Farinha de trigo branca
1 prato fundo de nozes, maça, damasco, uva passas, linhaça, ameixa e castanhas
Coloque o açúcar mascavo numa panela, adicione água e leite e leve ao fogo até ferver. Desligue o fogo e passe a mistura para outro recipiente (peneirando) e adicione a margarina. Adicione as especiarias, farinho de linhaça e trigo para dar consistência. Misture bem e coloque o fermento. Finalize acrescentando as frutas secas e leve ao forma (45min).

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2012

Jardim Botânico

“Sensibilizar pessoas para a importância da conservação das plantas e para o uso parcimonioso dos recursos ambientais”.
    Essa é a missão do Jardim Botânico de Nova Odessa.
 
 
Uma grande surpresa para mim. Ao entrar nesse jardim, meu coração se abriu a essa paisagem deslumbrante, cheia de canteiros de flores, ervas, árvores, vitórias-régias, tudo identificado com o nome científico e sua origem.

Gostosa manhã de domingo, quando meus olhos se encheram de uma beleza que há muito estavam precisando.


                                                                                                                                                            
                                                                               
                                                                                 
                                                                                
                                                                                 
                                                                                  
                                                                               

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Inutilidades


Para mim parece que o ano está começando agora. E nada melhor do que fazer aquelas limpezas de gavetas. Só que desta vez estou fazendo a limpeza das gavetas internas.

Depois de ter vivido esse período de 93 dias de coma de meu pai e sua morte serena na semana passada, fico aqui sentada no terraço do meu apartamento pensando em quantas inutilidades nós nos apropriamos. Como enchemos nossas gavetas internas com coisas que não nos servem para nada. Quer coisa mais inútil do que a mágoa? Sentir mágoa ou ressentimento não serve pra nada e nem pra ninguém. Julgar o outro e a si mesmo, que serventia tem isso? Fazer fofoca das pessoas que estão à nossa volta traz algum benefício? A culpa é outra coisa nas listas das inutilidades. E a lista pode ser grande.

Ao me deparar com esse evento tão forte neste momento de minha vida, entrei num mundo que desconhecia, um mundo cheio de hospitais, remédios, médicos, enfermeiras e pacientes em condições diferentes e ao mesmo tempo iguais. Mas também, neste mundo tão triste, tive contato com verdadeiros anjos no papel de enfermeiros, sem contar todas as pessoas que fui encontrando nos corredores do hospital e que também vivenciavam experiências profundas e que ainda eram capazes de aquecer meu coração com uma palavra, com uma história. A profundidade destes gestos nos faz expandir e vivenciar então o que é realmente importante e nos faz lembrar por que estamos aqui nessa existência.  E, portanto, tudo aquilo que me faz esquecer isso é pura inutilidade.

Quando deparamos com a vida e a morte numa linha divisória tão tênue, percebemos que a vida é muito mais do que todas essas inutilidades. Desapegar delas é o nosso grande trabalho para que possamos nos expandir para o que é realmente real, que é a consciência espiritual que faz com que a gente se perceba não como se fôssemos separados de tudo. A vida está sempre em transformação. Tudo é impermanente. Assim, por sermos parte disso tudo, também estamos em transformação. Se não nos desfizermos dessas inutilidades, as nossas gavetas ficarão abarrotadas de coisas que não precisamos mais e aí, não abrimos espaço para coisas novas. E tudo que não muda fica estagnado. Um ensinamento do Yoga é que o mundo com suas riquezas e pobrezas, alegrias e tristezas, bondades e maldades, se for visto realmente como ele é, não mais irá nos perturbar, pois tudo é transitório e passageiro.

E o desencarne de meu pai me fez vivenciar isso com muita profundidade. Já falei dele algumas vezes aqui nos posts: 90 anos - 05/03/2011, João - 08/09/2011, Meu pai - 07/08/2010. Ele viveu uma vida cheia de integridade, de honestidade, de dignidade, de respeito ao próximo e sempre estava de bom humor. E essa lembrança é o que traz paz para mim e minha família. Qualquer outra coisa que nos tire essa paz é inutilidade.

Registro aqui meu profundo agradecimento à vida por me ter dado oportunidade de ter uma pessoa como essa ao meu lado no papel de meu pai. E essa experiência me deixou a certeza de que estamos unidos pela nossa eternidade.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

Presente

"Bom dia" é o que falamos quase que automaticamente quando encontramos as pessoas. Esse video nos leva a refletir sobre o que é um "bom dia", que presentes recebemos durante o dia, qual a nossa atenção e gratidão para tudo que nos acontece.

Pode ser uma boa dica para esse início de ano tanto ao fazermos promessas, quanto ao colocarmos metas para que sejam cumpridas até o final do ano. Talvez essa meta possa ir se concretizando todos os dias, todas as horas, todos os minutos, em todas nossas ações. 

Ficar atento a todas as coisas que vão passando por nós, para nós e dentro de nós é um modo para se chegar a qualquer meta que estabelecermos.

Terça-feira, Janeiro 24, 2012

Permanência

Quando penso em “permanência”, num primeiro momento me vem a ideia de algo constante, que não muda, que permanece do mesmo modo por um tempo maior.

Outro dia, na prática de Yoga, o professor nos conduziu a uma postura que não tenho tanta dificuldade em fazer, mas, nesse dia, tive a sensação de que o professor não ia nunca mais passar para outra posição, parecia que estava ali por 15 minutos, o que não era verdade. Sentia meus músculos arderem. Tentava respirar e focar nessa sensação, mas minha mente saltava pensando, “tá demorando muito, talvez tenha que desmontar a posição antes do comando do professor”. Não conseguia relaxar na posição e não entendia o motivo, pois tinha feito esta postura antes com mais facilidade. Uma certa irritabilidade apareceu mesmo que eu fizesse respirações. E ficou aí esse conteúdo para eu me pesquisar, observar e aprender.

Claro que na minha auto-observação juntei essa experiência ao que estou vivendo no momento: meu pai em coma há quase três meses no hospital. A irritabilidade no exercício da permanência estava então ligada à minha necessidade de vivenciar essa permanência dolorosa da minha vida sem que nada pudesse fazer para mudá-la.

Permanecer numa situação em que você nada pode fazer pode te levar para um único lugar: para dentro de você mesma. E de lá podem surgir muitos conteúdos que você tinha certeza que já estavam assimilados, mas restavam alguns resquícios esperando o momento de serem integrados. Mas é também, lá dentro de você, que estão as ferramentas para elaborar esses novos (ou velhos)conteúdos. É lá que temos a possibilidade de ressignificar nossas crenças. Confesso que nesse período me desfiz de algumas crenças vazias, validei outras e adquiri novas. A flexibilidade interna precisou ser acionada, não sem alguma dor.

Ficar na permanência aqui pra mim está simbolizando reflexão, observação de meus sentimentos, paciência, não julgamento de mim mesma e de pessoas à minha volta, perdoar a mim mesma e me equilibrar nessa postura tão diferente que estou. Respirar é a chave. Meditar é chave. “Entregar, confiar, aceitar e agradecer” é a chave. O trabalho é profundo e exige uma verdade e uma concentração interna.

Uma das condições para se fazer uma postura no Yoga é a permanência que nos coloca física e mentalmente na disposição para que a postura aconteça. Os músculos precisam estar passivos. Claro que nessas posturas nossos músculos são colocados numa situação diferente das situações do nosso dia a dia, onde eles são encurtados.

No Yoga eles se esticam, relaxam, abrindo mais espaços, determinando nosso grau de flexibilidade. Quando estamos perto de seus limites, eles se contraem como uma forma de se proteger e nesse momento podemos permitir que eles se relaxem se pusermos nossa intenção nisso.

A cada expiração, podemos alongar um pouco mais. Assim podemos ir um pouco mais além sem violência e sem nos machucarmos.

Assim também quero ir um pouco mais além internamente, para abrir mais espaços dentro de mim e permanecer nessa contínua impermanência da vida.