Dentro de mim existe um lugar onde vivo inteiramente só
e é lá que se renovam as nascentes que nunca secam.
P.Buch

15 de outubro de 2011

Quebra-cabeça

         Catedral de Porto em Portugal
Essa semana, coincidentemente, reencontrei muitas pessoas que fizeram parte de várias fases da minha vida. A vida é mesmo um quebra-cabeça. Quando a gente vê apenas um pedaço desse quebra-cabeça, não entendemos nada, parece uma coisa sem sentido, mas quando um pedaço vai se juntando com outro, parece fazer todo sentido e aí a gente vai entendendo porque vivemos tais situações. Aí não existem mais problemas, existem apenas eventos que só viram problemas por causa de nossas crenças limitantes. No final tudo é bom, porque tudo contribui para nosso crescimento interno. A dor é parte natural da jornada humana. Todas as emoções são partes importantes do caminho. Depois esse complexo quebra-cabeça se junta a outros quebra- cabeças e vamos formando um grande desenho cósmico.

No livro Caminho da Prática a autora diz que nenhum de nós existe como ser independente, que estamos todos ligados ao universo por meio de nossa ancestralidade e nossa linhagem ancestral não se limita apenas àqueles com quem partilhamos a mesma herança genética, mas também os professores, mentores e amigos mais velhos que inspiraram e moldaram nossas vidas também estão incluídos.” De fato, somos o que somos hoje por causa de tudo que veio antes de nós. E por isso precisamos estar em paz com o passado.

Às vezes carregamos dores e conflitos provenientes da família imediata. "No seu passado existem ainda muitas lacunas... contas não saldadas, débitos interiores jamais pagos, senso de culpa, vitimismo e, sobretudo, cantos escuros em que predominam ferrugem e pó. Existe um lugar onde pensamentos, sensações, emoções, ações e eventos são registrados para sempre e, mesmo depois de anos, podemos reencontrá-los como objetos sem uso, guardados no sótão, aparentemente inativos. Perdoar-se por dentro não é um exame de consciência de um santo obtuso, mas o verdadeiro fazer de um homem de ação, o resultado de um longo processo de auto-observação. Significa lavar e curar as feridas ainda abertas. Perdoar-se dentro tem o poder de transformar o passado com toda a sua carga. O passado de uma pessoa comum que ainda não deu nem os primeiros passos em direção à unidade do ser é cheio de anzóis que o agarram à mínima tentativa de ali entrar e fazer mudanças...". (A escola dos deuses - Stefano Elio D'Anna).

Enquanto não enfrentarmos estas lembranças, não poderemos embarcar em nosso verdadeiro caminho. Tomarmos contato com essas dores, entendê-las e liberá-las de seu corpo emocional nos trará paz.

Há alguns anos quis viajar para Portugal, mais especificamente para a cidade do Porto, de onde meus bisavós saíram para o Brasil. Existe uma história comum que se repete desde 1700 (até onde consegui chegar) em minha família que está ligada com alcoolismo e abandono e que perpetua até nas gerações atuais, gerando muita dor. “...até entendermos e aceitarmos o passado e as formas como ele continua a nos dominar, permaneceremos espiritualmente sem paz e sem contato com o caminho da consciência.” (Do livro O Caminho da Prática).

Na cidade do Porto, embora não tenha vínculo com nenhuma religião, entrei na catedral e fiz um trabalho de perdão. Comecei perdoando e pedindo perdão por todas as histórias de abandono até os dias de hoje em minha família. Isso me fez sentir livre. Livre das histórias que carregamos por gerações fixadas em nossas células... 

Também a dor emocional pode ser genética. “Cada célula, cada átomo e lembrança de nosso ser foi divinamente comandado para se corrigir e se organizar cada vez que sair de sincronia com os ritmos cósmicos, ou seja, seu psiquismo vai trabalhar com você para restabelecer o equilíbrio espiritual." (Do livro O Caminho da Prática).

E então nesta semana, ao encontrar com tantas pessoas que fizeram parte de meu passado, senti uma oportunidade de aparar arestas, desvincular-me de bloqueios sem sentidos, pedir perdão e de me desfazer de histórias e situações que eu não precisava mais. Libertar-se de nossas próprias amarras emocionais é nos apropriamos de nossa própria vida.

7 comentários:

  1. Zezé,

    Na abordagem sistêmica a gente vê como as histórias de família, principalmente aquelas que envolvem segredos, podem criar "ganchos" que afetam membros de outras gerações. Por isso que a mesma situação se repete em várias gerações.

    Mesmo de uma perspectiva junguiana, alguns temas estão presentes universalmente (IC). O que a gente precisa fazer é desengatar desses padrões... e esse é um trabalho individual e intransferível. Acho que ao fazer isso, além do benefício pessoal, a gente consegue gerar benefícios para os outros "personagens" da história.

    Quando a gente consegue montar o quebra-cabeça, é possível doá-lo para o Universo como parte da experiência humana, mas sem muito apego e identificação.

    Beijos
    Sandra Felicidade

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  2. Sandra
    Legal essa contribuição. É interessante como vemos a mesma abordagem nos Vedas, na psicologia, nas religiões... Tudo é uma questão de nos conhecermos e desfazer de histórias e crenças que já não nos servem mais...e nos perdoarmos.
    Obrigada amiga
    Zezé

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  3. O ato de perdoar é um ato de desapegar... grande desafio esse...

    Eu tô na Bahia, Zezé! Numa cidadezinha chamada Várzea da Roça, voluntariando num projeto bem bacana...

    Beijo grande e uma ótima semana!

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  4. É isso mesmo, D. Zezinha!
    São caminhos/formas diferentes de falar a mesma coisa. Todos eles levam à compreensão de que nossas experiências não devem ter esse peso da culpa. No fim, tudo vai compor o "banco de dados" universal da experiência humana. Estamos todos contribuindo para isso.
    Beijos
    Sandra Felicidade

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  5. Gostei muito!!!
    Tem um texto do Chico Xavier chamado Irmãos em Perigo que tem várias frases que podemos trabalhar e acho que a mais difícil é essa: "Os que declaram perdoar a ofensa, mas que nunca conseguem esquecer o mal."

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  6. Sara Ponzini Vieira22 de dezembro de 2011 23:58

    Só hoje li este texto. Gostei muito, Zezé. Quem sabe eu também um dia possa fazer esse trabalho de liberação com/pela minha família...

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  7. Otimo, Zeze! Achei que estava precisando ler algo assim, para me ajudar a libertar de sentimentos ruins que estao guardados em mim.
    Larissa

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