Dentro de mim existe um lugar onde vivo inteiramente só
e é lá que se renovam as nascentes que nunca secam.
P.Buch

2 de outubro de 2011

Metáfora

Uma das casas de Nazaré
Em 1989, quando fui morar em Nazaré – comunidade que hoje se transformou em “Uniluz” – e lá morei por 3 intensos anos, comecei a trabalhar na limpeza dos quartos e banheiros.

Depois de 15 anos trabalhando em firmas multinacionais eu precisava de um momento sabático para descobrir que rumo eu queria que minha vida tomasse. Sabia com certeza que viver sem ver o sol, longe da natureza, sem tempo livre para desenvolver outras das minhas potencialidades me fazia sentir perdida de mim mesma, sem conexão interna e sem sentido social. Também sabia que nada na vida é permanente e que as coisas mudam o tempo todo e eu queria mudar seguindo o fluxo das mudanças. “Existe um tipo de ruptura a partir do qual emerge aquilo que é inteiro.”

E lá fui eu no ensolarado mês de janeiro para a comunidade que me acolhera com muito carinho. Instalei-me num quarto minúsculo com um pequeno armário onde eu guardaria tudo o que eu tinha. Abri a janela vi as árvores de eucalipto, cujo frescor adentrava em meu novo quarto e pássaros coloridos e de pios sonoros me davam boa vinda. E assim comecei essa experiência que me arejou o físico, mente e o espírito.

Não por acaso fui focalizar então o trabalho da limpeza dos quartos e banheiros dos hóspedes, depois na recepção e junto com isso focalizava também o Jogo da Transformação. Mas foi na limpeza, por um ano e meio, onde pude trabalhar tantas facetas de mim mesma.

As metáforas desse trabalho me levaram a descobrir as minhas próprias metáforas. Num primeiro momento, meu ego dizia que eu poderia fazer outras coisas, pois tinha trabalhado em multinacionais e adquirido muita experiência. Depois, fui me acalmando internamente ao descobrir que não importava muito o que eu fazia, mas como fazia, que intenção eu colocava no trabalho, para quê eu estava fazendo e que expectativas eu tinha com o resultado.

Com o tempo tudo foi se organizando em minha mente à medida em que organizava os quartos, o jardim, os pequenos vasinhos de flores que usávamos conscientemente, sabendo exatamente qual flor poderia ser tirada do jardim e qual seria sua função. Fui descobrindo que o foco não é no resultado, mas no desenvolvimento da atividade e, quanto mais refinássemos nossas ações, mais o resultado seria gratificante e surpreendente, principalmente quando os hóspedes davam seus depoimentos de quanto uma determinada ação nossa teria tido um efeito tão positivo neles e, claro, essa gratidão deles nos atingia na alma.

O ato de limpar e organizar, abre espaços externos e internos em nós, removemos energia estagnada. “Guardar objetos e papéis, e depois esquecer o que foi guardado, é uma metáfora de nossas memórias ancestrais. Quando nossos armários estão repletos, já não sabemos mais o que há lá dentro.”

Gostava de limpar os azulejos que iam descortinando outras cores e me dava a possibilidade de estar presente no presente, concentrada na atividade. Era como colocar luz na matéria. Até hoje tenho um encanto especial ao dar banho em banheiros. “Por intermédio da espécie humana, o universo se torna mais consciente de si mesmo”.

Todas as citações entre aspas desse texto são de Maya Tiwari, cujo livro “Caminho da Prática” estou lendo – ainda escreverei muito sobre o que estou lendo nesse livro – diz: “Termine todas as ações que começar. Os ritmos da natureza pedem que cada ocorrência chegue ao seu final. Ao terminar cada ato iniciado, você pede ao universo que lhe dê tempo para restaurar suas energias naturais. A cada ação terminada segue-se um sentimento de exuberância – a alegria que surge depois de plantar os campos naquele ano, terminar um quadro ou lavar os pratos depois de uma refeição deliciosa e saudável. O coração se torna leve e bem resolvido e a respiração flui suavemente por ele. O espírito da graça, trazendo gratidão pelas dádivas recebidas, é fortificado.”

Bom, naquele trabalho simples e intenso que eu desempenhava lá na comunidade descobri que podemos ser catalizadores de uma consciência mais elevada por meio de simples afazeres e contatos com a natureza. Sempre que agora me sobrecarrego de afazeres, tento perceber se estou fluindo nesse ritmo ou se estou me afastando de quem eu sou, e me dou descansos e momentos de lazer que me energizam e regularizam o ritmo interno.
Sala de Estudos

10 comentários:

  1. Amiga querida, sobre como são significativas as coisas simples da vida. Bom termos vivenciado tudo isto!

    ResponderExcluir
  2. Saudades, Zezé. Tempos realmente bons! Essas memórias estão nas minhas gavetas, mas nunca criam mofo!

    ResponderExcluir
  3. Como está você ? Respirando ??? rsrs....
    Tenho acompanhado o seu blog com intenso prazer e em várias situações e colocações me sinto ali, como se eu tivesse escrito e descrito aquela experiência.
    Espero que tudo esteja na PAZ e em PAZ.
    Grande abraço e até qq. momento.
    Sandra Neves

    ResponderExcluir
  4. Curiosamente, na ruptura a gente se reintegra.
    Sandra Felicidade

    ResponderExcluir
  5. Como sempre, tenho aprendido muito com tudo que leio no seu blog. Hoje não foi diferente.Eu sou um pouco(para ser modesta) desorganizada e fico às vezes com diversas coisas em aberto, tipo: nem termino uma e já começo outra, principalmente com o artesanato. É ansiedade eu sei, mas devagar eu vou controlando e quando eu leio algo que me toca, eu procuro mudar. Hoje eu aprendi mais um pouco. Obrigada Zezé, vc. tem sido ótima companheira à distância. Vc. nem imagina como tem me ajudado.Com carinho Rudi.

    ResponderExcluir
  6. Sara Ponzini Vieira5 de outubro de 2011 22:39

    Zezé! Hoje estou lendo seu post sobre o que você fazia em Nazaré... veja só. Exatamente o que lhe disse no nosso reencontro depois de um monte de anos: o que mais me lembrava de você era você passando o paninho nos azulejos da lavanderia dizendo que ao fazer qualquer coisa com consciência nos trazemos luz à matéria!! Sim, fui testemunha daqueles momentos e adorava fazer limpeza na casa de hóspedes (além da cozinha, claro). Vi que tem comentários da Paula e do Marcos, que legal!!! Um beijo para eles também! Com carinho, Sara.

    ResponderExcluir
  7. Irmãos!
    Esses tempos eram plenos do lado impessoal como do lado pessoal.
    A rotina como o mágico.
    Uma escola para aprender e tambêm para desaprender.
    Para amadurecer pelo equilibrio e nos desafíos dos desequilibrios.
    Sentir plenitude como solidão.
    Sentir saudades do sagrado e traze-lo de volta a nossas vidas.
    Noa sonhos comwntados no desjejum uma luz orientadora.
    Nas reuniões algumas palavras desorientadoras outras poéticas outras dando o rumo.
    Na meditação um vazío pleno.
    No alimento o carinho e a saúde.
    Nos jardins a presença dévica e as mãos ágis dos jardineiros.
    No estacionamento de zapatos velhos a marca do trabalho.
    Na kombi a liberdade das crianças.
    Na salinha superior da casa dois o centramento e a escuta, a sabedoría e... uma criança de cabelos brancos.
    Na varanda a troca de amizade e ás risadas.
    Nos ciclos a contínua transformação.
    E ainda faltando muito por dizer resta minha afirmação essencial: Foi vivenciado juntos! que privilegio verdade?
    Abraços de Eliana Gavenda

    ResponderExcluir
  8. Só tenho a dizer: Saudades...e a certeza que trago todas estas experiencias como um tesouro precioso dentro de mim. Beijos amigos/irmãozinhos inspiradores

    ResponderExcluir
  9. Zezé, frequento Nazaré há muitos anos, e, este seu relato abundante em amorosidade me inspira ainda mais a ver a vida com mais otimismo, gratidão.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Martha. Obrigada pelo comentário. Já existe o mundo novo sendo construido e a gente pode escolher fazer parte dele ao trabalhar nossa amorosidade. Estamos todos no mesmo barco. Namastê.

      Excluir